segunda-feira, 19 de novembro de 2007

SURREALISMO


SURREALISMO

Surrealismo foi um movimento artístico e literário surgido primariamente em Paris dos anos 20, inserido no contexto das vanguardas que viriam a definir o modernismo, reunindo artistas anteriormente ligados ao Dadaísmo e posteriormente expandido para outros países. Fortemente influenciado pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud (1856-1939), o surrealismo enfatiza o papel do inconsciente na atividade criativa. Seus representantes mais conhecidos são Max Ernst, René Magritte e Salvador Dalí no campo das artes plásticas e André Breton na literatura.

Visão geral
As características deste estilo: uma combinação do representativo, do abstrato, e do psicológico. Segundo os surrealistas, a arte deve se libertar das exigências da lógica e da razão e ir além da consciência cotidiana, expressando o inconsciente e os sonhos. O principal teórico e líder do movimento é o poeta, escritor, crítico e psiquiatra francês André Breton (1896-1966), que em 1924 publica o primeiro Manifesto Surrealista.
No manifesto e nos textos teóricos posteriores, os surrealistas rejeitam a chamada ditadura da razão e os valores burgueses como pátria, família, religião, trabalho e honra. Humor, sonho e a contra-lógica são recursos a serem utilizados para libertar o homem da existência utilitária. Segundo a nova ordem, as idéias de bom gosto e decoro devem ser subvertidas. Neste sentido, o Surrealismo aproximava-se daquelas que eram chamadas de vanguardas positivas, como o neoplasticismo e a Bauhaus, chegando inclusive a dialogar com o movimento comunista. No entanto, pela sua proposta estética, está mais próximo das vanguardas negativas, como o supracitado dadá, de onde surgiu parcialmente.
Uma das principais idéias trabalhadas pelos surrealistas é a da escrita automática, segundo a qual o impulso criativo artístico se dá através do fluxo de consciência despejado sobre a obra. Ainda segundo esta idéia, a arte não é produto de gênios, mas de cidadãos comuns.

Trajetória
A palavra surrealismo havia sido criada em 1917 pelo poeta Guillaume Apollinaire (1886-1918), ligado ao Cubismo, para identificar expressões artísticas que se esboçavam e é adotada pelos surrealistas por refletir a idéia de algo além do realismo. O início do movimento se dá por volta de 1922, quando os dadaístas se dispersam.
Em 1929, os surrealistas publicam um segundo manifesto e editam a revista A Revolução Socialista. Entre os artistas ligados ao grupo em épocas variadas estão os escritores franceses Paul Éluard (1895-1952), Louis Aragon (1897-1982) e Jacques Prévert (1900-1977), o escultor italiano Alberto Giacometti (1901-1960), o dramaturgo francês Antonin Artaud (1896-1948), os pintores espanhóis Salvador Dali (1904-1989) e Juan Miró (1893-1983), o belga René Magritte (1898-1967), o alemão Max Ernst (1891-1976), e o cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983).
Nos anos 30, o movimento internacionaliza-se e influencia várias outras tendências, conquistando adeptos em países da Europa e nas Américas. Em 1969, após sucessivas crises, o grupo se dissolve.
No Brasil, o surrealismo é uma das muitas influências captadas pelo modernismo.

Surrealismo Na Arte
o surrealismo destacou-se nas artes, principalmente por quadros ou esculturas que expressavam os sonhos dos artistas. Porém não bastavam ser sonhos comuns, deveriam ser aqueles que tem formas variadas e confusas, como um boi com asas ou peixes andando nas nuvens. opkaspaskpoakosaskpsaks

curiosidades
Como muitos dos primeiros participantes do Surrealismo foram originados do movimento Dadá, uma separação enfática entre Surrealismo e Dadaísmo na teoria e prática pode ser difícil de ser estabelecida, apesar das declarações de Andre Breton no assunto não deixam dúvidas sobre sua própria claridade sobre as suas diferenças. No círculo acadêmico, esta linha imaginária é diferente entre diferentes historiadores.
As raízes do Surrealismo nas artes visuais emprestam características ambos do Dadá e do Cubismo, assim como da abstração de Wassily Kadinsky e do Expressionismo, assim também como do Pós-Impressionismo.

Anos 30
Dalí e Magritte criaram as mais reconhecidas obras do movimento. Dalí entrou para o grupo em 1929, e participou do rápido estabelecimento do estilo visual entre 1930 e 1935.
Surrealismo como movimento visual tinha encontrado um método: expor a verdade psicológica ao despir objetos ordinários de sua significância normal, a fim de criar uma imagem cativante que ia além da organização formal ordinária, a fim de invocar a empatia do observador.
Em 1931 vários pintores Surrealistas produziram obras que foram marcos da evolução da estética do movimento: La Voix des Airs de Magritte é um exemplo deste processo, onde são vistas 3 grandes esferas representando sinos pendurados sobre uma paisagem. Outra paisagem Surrealista deste mesmo ano é Palais Promontoire de Tanguy, com suas formas líquidas. Formas como estas se tornaram a marca registrada de Dali, particularmente com sua obra A Persistência da Memória, onde relógios de bolso derretem como se fossem líquidos.
Muito depois de tensões pessoais, políticas e profissionais separarem o grupo Surrealista, Magritte de Dali continuaram a definir um programa visual nas artes. Além da pintura, este programa também engloba a fotografia, como pode ser vista no auto-retrato de Man Ray, cuja agregação de objetos influenciou as colagens de Robert Rauschenberg.
Durante os anos 30, Peggy Guggenheim, uma importante colecionadora de arte se casou com Max Ernst e começou a promover as obras de outros Surrealistas como Yves Tanguy e o britânico John Tunnard. Porém, com o rompimento da segunda guerra mundial, a preferência da vanguarda se inclinou decisivamente em favor do Expressionismo Abstrato, com o suporte de pessoas influentes como Leo Steinberg, Clement Greenberg e até mesmo Guggenheim. Todavia, não deveria ser esquecido que o próprio Expressionismo Abstrato cresceu diretamente do encontro de artistas americanos com Surrealistas europeus refugiados da Guerra. Em particular, Arshile Gorky influenciou o desenvolvimento desta forma de arte americana. O Surrealismo pode ser visto como a mais importante influência na explosão do crescimento do movimento artístico americano, e até mesmo da Pop Art.

Da Segunda Guerra Mundial e em diante
A Segunda Guerra Mundial provou ser desruptiva para o Surrealismo. Os artistas continuaram com suas obras, incluindo Magritte. Muitos membros do movimento continuaram a se corresponder e se encontrar. (Em 1960, Magritte, Duchamp, Ernst e Man Ray se encontraram em Paris.) Apesar de Dali não mais se comunicar com Breton, ele não abandonou seus motivos dos anos 30, incluindo referências a sua obra Persistência do Tempo em uma obra posterior.
Durante os anos 40 o Surrealismo também influenciou a Inglaterra e os EUA. Na Inglaterra, Henry Moore, Lucian Freud, Francis Bacon e Paul Nash usaram ou experimentaram com técnicas Surrealistas. Porém, Conroy Maddox, um dos primeiros Surrealistas britânicos, cujas obras no gênero se datam desde 1935, continuou no movimento, organizando uma exibição de obras Surrealistas em 1978, em resposta a uma mostra anterior que o enfureceu porque não representava o Surrealismo propriamente. A exibição de Maddox, entitulada Surrealismo Sem Limites, foi realizada em Paris, e atraiu atenção internacional. Ele realizou sua última apresentação em 2002, e veio a falecer três anos depois.
O trabalho de Magritte se tornou mais realista na sua representação de objetos reais, enquanto mantinha o elemento de justaposição, como em sua obra Valores Pessoais (1951) e Império da Luz (1954). Magritte continuou a produzir obras que entraram para o vocabulário artístico, como Castelo nos Pireneus, que faz uma referência a Voix de 1931, na sua suspensão sobre a paisagem.
Outras personalidades do movimento Surrealista foram expulsas. Vários destes artistas, como Roberto Mattam segundo ele próprio, “continuou próximo ao Surrealismo”.
Muitos novos artistas explicitamente tomaram para si o título de Surrealistas. Duchamp continuou a produzir esculturas e, quando morreu, estava trabalhando em uma instalação que representava realisticamente uma mulher somente visível através de uma fenda.
Arte Surrealista continua imensamente popular entre curadores de museus. Em 2001 Tate Modern apresentou uma exibição de arte Surrealista que atraiu mais de 170,000 visitantes em sua temporada. Tendo sido uns dos mais importantes movimentos do período moderno, o Surrealismo inspirou uma nova geração que procura expandir o vocabulário da arte.

in Wikipedia

SURREALISMO Textos Essenciais


André Breton
"Manifesto Surrealista"
1924


Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão ( o que ele chama decisão! ) . Bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. SE conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se de sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo; ele se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai dormir.
Mas é verdade que não se pode ir tão longe, não é uma questão de distância apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só se lhe permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao vigésimo ano prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.
Procure ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a pouco lhe faltam razões para viver, incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, como seja o amor, ele muito dificilmente o conseguirá. É que ele doravante pertence, de corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que não permite ser desconsiderada. Faltará amplidão a seus gostos, envergadura a suas idéias. De tudo que lhe acontece e pode lhe acontecer, ele só vai reter o que for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte, eventos perdidos. Que digo, ele fará sua avaliação em relação a um desses acontecimentos, menos aflitivo que os outros, em suas conseqüências. Ele não descobrirá aí, sob pretexto algum, sua salvação.
Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares.
Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar ( como se fosse possível enganar-se mais ainda ). Onde começa ela a ficar nociva, e onde se detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar não é, antes, a contingência do bem?
Fica a loucura."a loucura que é encarcerada", como já se disse bem. Essa ou a outra.. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que, não houvesse estes atos, sua liberdade ( o que se vê de sua liberdade ) não poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas de sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais o gênero se sente visado, o que cada um é pago para saber. Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginação e apreciam seu delírio o bastante para suportar que só para eles seja válido. E, de fato, alucinações, ilusões, etc. são fonte de gozo nada desprezível. A mais bem ordenada sensualidade encontra aí sua parte, e eu sei que passaria muitas noites a amansar essa mão bonita nas últimas páginas do livro. A Inteligência de
Taine, se dedica a singulares malefícios. As confidências dos loucos, passaria minha vida a provoca-las. São pessoas de escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam como essa loucura cresceu, e durou.
Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.
O processo da atitude realista deve ser instruído, após o processo da atitude materialista. Esta, aliás, mais poética que a precedente, implica da parte do homem um orgulho sem dúvida monstruoso, mas não uma nova e mais completa deposição. Convém nela ver, antes de tudo, uma feliz reação contra algumas tendências derrisórias do espiritualismo. Enfim, ela não é incompatível com uma certa elevação de pensamento.
Ao contrário, a atitude realista, inspirada no
positivismo, de São Tomás a Anatole France, parece-me hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral. Tenho-lhe horror, por ser feita de mediocridade, ódio e insípida presunção. É ela a geradora hoje em dia desses livros ridículos, dessas peças insultuosas. Fortifica-se incessantemente nos jornais , e põe em xeque a ciência, a arte, ao aplicar-se em bajular a opinião nos seus critérios mais baixos; a clareza vizinha da tolice, a vida dos cães. Ressente-se com isso a atividade dos melhores espíritos; a lei do menor esforço afinal se impõe a eles como aos outros. Conseqüência divertida deste estado de coisas, em literatura, é a abundância dos romances. Cada um contribui com sua pequena"observação". Por necessidade de depuração o sr. Paul Valéry propunha recentemente fazer antologia do maior número possível de começos de romances cuja insensatez ele muito esperava. Os mais famosos autores seriam chamados a participar. Tal idéia dignificava também Paul Valéry, que, não há muito, a propósito dos romances, me garantia que, ele, sempre se recusaria a escrever:"A marquesa saiu às cinco horas." Mas cumpriu ele a sua palavra?
Se o escrito de informação pura e simples de que a frase precipitada é exemplo, tem emprego corrente nos romances certamente é por não ir longe a ambição dos autores. O caráter circunstancial, inutilmente particular, de cada notação sua, me faz pensar que estão se divertindo, eles, à minha custa. Não me poupam nenhuma hesitação do personagem: será louro, como se chama, vamos sair juntos no verão? Outras tantas perguntas resolvidas decisivamente, ao acaso; só me restou o poder discricionário de fechar o livro, o que não deixo de fazer, ainda perto da primeira página. E as descrições! Nada se compara ao seu vazio; são superposições de imagens de catálogo, o autor as toma cada vez mais sem cerimônia, aproveita para me empurrar seus cartões postais, procura fazer-me concordar com os lugares-comuns:
A salinha onde foi introduzido o moço era forrada de papel amarelo: havia gerânios e cortinas de musselina nas janelas; o sol poente jogava sobre tudo isso uma luz clara... O quarto não continha nada de particular. Os móveis, de madeira amarela, eram todos velhos. Um sofá com grande encosto inclinado, uma mesa oval diante do sofá, um toucador, com espelho, entre as janelas, cadeiras encostadas às paredes, duas ou três gravuras sem valor, representando moças alemãs com pássaros nas mãos - eis a que se reduzia a mobília. ( Dostoievski, Crime e Castigo )
Que o espírito se proponha, mesmo por pouco tempo, tais motivos, não tenho disposição para admiti-lo. Podem sustentar que este desenho clássico está no lugar certo e que neste passo do livro o autor tem seus motivos para me esmagar. Perde seu tempo, pois não entro no seu quarto. A preguiça, a fadiga dos outros não me prendem. Tenho da continuidade da vida uma noção instável demais para igualar aos melhores os meus momentos de depressão, de fraqueza. Quero que se calem, quando param de ressentir. E entendam bem que não incrimino a falta de originalidade pela falta de originalidade. Digo apenas que não faço caso dos momentos nulos de minha vida, que da parte de qualquer homem pode ser indigno de cristalizar aqueles que lhe parecem tais. Esta descrição de quarto, e muitas outras, permitam-me, digo: passo.
Ora, cheguei à psicologia, e com este assunto nem penso em brincar.
O autor pega-se com um personagem, e escolhido este, faz seu herói peregrinar pelo mundo. Haja o que houver, este herói, cujas ações são admiravelmente previstas, tem a incumbência de não desmanchar, parecendo porém sempre desmanchar, os cálculos de que é objeto. As vagas da vida podem parecer arrebata-lo, roda-lo, afunda-lo, ele sempre dependerá deste tipo humano formado. Simples partida de xadrez, da qual me desinteresso mesmo, sendo o homem, qualquer um, um medíocre adversário para mim. Não posso é suportar estas reles discussões de tal ou qual lance, desde que não se trata nem de ganhar nem de perder. E se o jogo não vale um caracol, se a razão objetiva prejudica terrivelmente, como é o caso, quem nela confia, não convirá fazer abstração destas categorias?"É tão ampla a diversidade, que todos os tons de voz, todos os passos, tosses assôos, espirros..." Se um cacho de uvas não tem duas sementes iguais, como querem que lhes descreva este bago pelo outro, por todos os outros, que dele faça um bago bom para comer? Esta intratável mania de reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável, embala os cérebros. O desejo de análise prevalece sobre os sentimentos. Disso resultam dilatadas exposições cuja força persuasiva reside na sua própria singularidade, e que iludem o leitor pelo recurso a um vocabulário abstrato, bastante mal definido, aliás. Se as idéias gerais que a filosofia se propõe até aqui debater, marcassem por aí sua incursão definitiva num domínio mais extenso, seria eu o primeiro a me alegrar. Mas por enquanto é só afetação; até aqui os ditos espirituosos e outras boas maneiras nos encobrem à porfia o verdadeiro pensamento que se busca ele próprio, em vez de se ocupar em obter sucessos. Parece-me que todo ato traz em si mesmo sua justificação, ao menos para quem foi capaz de comete-lo, que ele é dotado de um poder radiante que a mínima glosa, por natureza, enfraquece. Devido a esta última ele deixa mesmo, de certo modo, de se produzir. Não ganha nada com esta distinção. Os heróis de Stendhal caem aos golpes deste autor, apreciações mais ou menos felizes, que nada acrescentam à sua glória. Onde os encontraremos de fato, é onde Stendhal os perdeu.
Ainda vivemos sob o império da lógica, eis aí, bem entendido, onde eu queria chegar. Mas os procedimentos lógicos, em nossos dias, só se aplicam à resolução de problemas secundários. O racionalismo absoluto que continua em moda não permite considerar senão fatos dependendo estreitamente de nossa experiência. Os fins lógicos, ao contrário, nos escapam. Inútil acrescentar que à própria experiência foram impostos limites. Ela circula num gradeado de onde é cada vez mais difícil faze-la sair. Ela se apóia, também ela, na utilidade imediata, e é guardada pelo bom senso. A pretexto de civilização e de progresso conseguiu-se banir do espírito tudo que se pode tachar, com ou sem razão, de superstição, de quimera; a proscrever todo modo de busca da verdade, não conforme ao uso comum. Ao que parece, foi um puro acaso que recentemente trouxe à luz uma parte do mundo intelectual, a meu ver, a mais importante, e da qual se afetava não querer saber. Agradeça-se a isso às descobertas de Freud. Com a fé nestas descobertas desenha-se afinal uma corrente de opinião, graças à qual o explorador humano poderá levar mais longe suas investigações, pois que autorizado a não ter só em conta as realidades sumárias. Talvez esteja a imaginação a ponto de retomar seus direitos. Se as profundezas de nosso espírito escondem estranhas forças capazes de aumentar as da superfície, ou contra elas lutar vitoriosamente, há todo interesse em captá-las, capta-las primeiro, para submete-las depois, se for o caso, ao controle de nossa razão. Os próprios analistas só têm a ganhar com isso. Mas é importante observar que nenhum meio está a priori designado para conduzir este empreendimento, que até segunda ordem pode ser também considerado como sendo da alçada dos poetas, tanto como dos sábios, e o seu sucesso não depende das vias mais ou menos caprichosas a serem seguidas.
Com justa razão Freud dirigiu sua crítica para o sonho. É inadmissível, com efeito, que esta parte considerável da atividade psíquica ( pois que, ao menos do nascimento à morte do homem, o pensamento não tem solução de continuidade, a soma dos momentos de sonho, do ponto de vista do tempo a considerar só o sonho puro, o do sono, não é inferior à soma dos momentos de realidade, digamos apenas: dos momentos de vigília ) não tenha recebido a atenção devida. A extrema diferença de atenção, de gravidade, que o observador comum confere aos acontecimentos da vigília e aos do sono, é caso que sempre me espantou. É que o homem, quando cessa de dormir, é logo o joguete de sua memória, a qual, no estado normal, deleita-se em lhe retraçar fracamente as circunstâncias do sonho, em privar este de toda conseqüência atual, e em despedir o único determinante do ponto onde ele julga tê-lo deixado, poucas horas antes: esta esperança firme, este desassossego. Ele tem a ilusão de continuar algo que vale a pena. O sonho fica assim reduzido a um parêntese, como a noite. E como a noite, geralmente também não traz bom conselho. Este singular estado de coisas parece-me conduzir a algumas reflexões:
1.º nos limites onde exerce sua ação ( supõe-se que a exerce ) o sonho, ao que tudo indica, é contínuo, e possui traços de organização. A memória arroga-se o direito de nele fazer cortes, de não levar em conta as transições, e de nos apresentar antes uma série de sonhos do o sonho. Assim também, a cada instante só temos das realidades uma figuração distinta, cuja coordenação é questão de vontade. Importa notar que nada nos permite induzir a uma maior dissipação dos elementos constitutivos do sonho. Lamento falar disso segundo uma fórmula que exclui o sonho, em princípio. Quando virão os lógicos, os filósofos adormecidos? Eu gostaria de dormir, para poder me entregar aos dormidores, como me entrego aos que lêem, olhos bem abertos; para cessar de fazer prevalecer nesta matéria o ritmo consciente de meu pensamento. Meu sonho desta última noite talvez prossiga o da noite precedente, e seja prosseguido na próxima noite, com louvável rigor. É bem possível, como se diz. E como não está de modo nenhum provado que, fazendo isso, a"realidade" que me ocupa subsista no estado de sonho, que Lea não afunde no imemorial, porque não haveria eu de conceder ao sonho o que recuso por vezes à realidade, seja este valor de certeza em si mesma, que, em seu tempo, não está exposta a meu desmentido? Por que não haveria eu de esperar do indício do sonho mais do que espero de um grau de consciência cada dia mais elevado? Não se poderia aplicar o sonho, ele também, resolução de questões fundamentais da vida? Serão estas perguntas as mesmas num caso como no outro, e no sonho elas já estão? O sonho terá menos peso de sanções que o resto? Envelheço, e mais que esta realidade à qual penso me adstringir, é talvez o sonho, a indiferença que lhe dedico, que me faz envelhecer;
2.º. retomo o estado de vigília. Sou obrigado a considera-lo um fenômeno de interferência. Não apenas o espírito manifesta, nestas condições, uma estranha tendência à desorientação (é a história dos lapsos e enganos de toda espécie cujo segredo começa a nos ser entregue) mas ainda não parece que, em seu funcionamento normal, ele obedeça a outra coisa senão a sugestões que lhe vêm desta noite profunda das quais eu recomendo. Por mais bem condicionado que ele esteja, seu equilíbrio é relativo. Mal ousa expressar-se, e se o faz, é para limitar à constatação de que tal idéia, tal mulher, lhe faz impressão. Que impressão, seria incapaz de dize-lo, dando assim a medida de seu subjetivismo, e nada mais. Esta idéia, esta mulher, o perturba, predispõe-no a menos severidade. Ela tem a ação de isola-lo um segundo de seu solvente e de deposita-lo no céu, como belo precipitado que ele pode ser, que ele é. Em desespero de causa, invoca ele o acaso, divindade mais obscura que as outras, à qual atribui todos os seus desvarios. Que me diz que o ângulo sob o qual se apresenta esta idéia que o afeta, o que ele ama no olho desta mulher não é precisamente o que o liga a seu sonho, o prende a dados que ele perdeu por sua culpa? E se isso fosse de outro modo, do que não seria ele capaz, talvez? Eu gostaria de dar-lhe a chave deste corredor;
3.º. o espírito do homem que sonha se satisfaz plenamente com o que lhe acontece. A angustiante questão da possibilidade não mais está presente. Mata, vi mais depressa, ama tanto quanto quiseres. E se morres, não tens certeza de despertares entre os mortos? Deixa-te levar, os acontecimentos não permitem que os retardes. Não tens nome. É inapreciável a facilidade de tudo.
Que razão, eu te pergunto, razão tão maior que outra, confere ao sonho este comportamento natural, me faz acolher sem reserva uma porção de episódios cuja singularidade, quando escrevo, me fulminaria? E no entanto, posso crer nos meus olhos, nos meus ouvidos: chegou o belo dia, esse bicho falou.
Se o despertar do homem é mais duro, se ele quebra muito bem o encanto, é que o levaram a ter uma raça idéia da expiação;
4.º. do momento em que seja submetido a um exame metódico, quando, por meios a serem determinados, se chegar a nos dar conta do sonho em sua integridade (isto supõe um disciplina da memória que atinge gerações; mesmo assim comecemos a registrar os fatos salientes), quando sua curva se desenvolve com regularidade e amplidão sem iguais, então se pode esperar que os seus mistérios, não mais o sendo, dêem lugar ao grande Mistério. Acredito na resolução futura destes dois estados, tão contraditórios na aparência, o sonho e a realidade, numa espécie de realidade absoluta, de surrealidade, se assim se pode dizer.
Parto à sua conquista, certo de não consegui-la, mas bem despreocupado com minha morte, vou suputar um pouco os prazeres de tal posse.
Conta-se que todo o dia, à hora de dormir, Saint-Roux mandava colocar à porta de seu solar em Camaret um cartaz onde se lia: O POETA TRABALHA. Muito haveria ainda a dizer, mas de passagem, só quis aflorar um assunto que, por si só, necessitaria um alongado discurso e um maior rigor; voltarei a esse ponto. Desta vez, minha intenção era dizer a verdade sobre o ódio ao maravilhoso que grassa em certos homens, deste ridículo no qual o querem fazer cair. Falando claro: o maravilhoso é sempre belo, qualquer maravilhoso é belo, só mesmo o maravilhoso é belo.
No domínio literário, só o maravilhoso é capaz de fecundar obras dependentes de um gênero inferior, como o romance, e de modo geral, de tudo que participa da anedota. Uma prova admirável é O Monge, de Lewis. O sopro do maravilhoso o anima por inteiro. Bem antes de o autor ter libertado seus principais personagens de qualquer coerção temporal, já se percebe que estão prontos para agir com altivez sem precedente. Esta paixão da eternidade, que os exalta sem cessar, confere inesquecíveis acentos a seu tormento e ao meu. Entendo que este livro só exalta, do começo ao fim, e da forma mais pura do mundo, aquilo que do espírito aspira a deixar o chão, e que, despojado de uma parte insignificante de sua afabulação romanesca, à moda do tempo, constitui um modelo de justeza, de inocente grandiosidade. parece-me que não se fez melhor, e a personagem de Matilde, em particular, é a criação mais comovente que se possa pôr ao ativo deste modo figurado em literatura. É menos um personagem que uma contínua tentação. E se um personagem não é uma tentação, o que é? Tentação extrema aquela. O"nada é impossível a quem sabe ousar" dá em O Monge toda a sua convincente medida. As aparições aí têm um papel lógico, pois que o espírito crítico não se apodera delas para contesta-las. Também o castigo de Ambrósio é tratado de maneira legítima, pois é finalmente aceito pelo espírito crítico como desenlace natural.
Pode parecer arbitrário que eu proponha este modelo, quando se trata do maravilhoso, do qual as literaturas no Norte e as literaturas orientais tiraram subsídios e mais subsídios, sem falar das literaturas propriamente religiosas de toda a parte. É que a maior parte dos exemplos que estas literaturas poderiam me fornecer estão eivadas de puerilidade, pela boa razão de serem dirigidas às crianças. Cedo elas são cortadas do maravilhoso, e mais tarde, não guardaram suficiente virgindade de espírito para sentirem extremo prazer com Pele de Asno. Por mais encantadores que sejam, o homem julgaria decair ao se nutrir de contos de fadas, e concordo que estes não são todos de sua idade. O tecido de adoráveis inverossimilhanças requer mais finura, à medida que se avança, e ainda se está à espera destas espécies de aranhas... Mas as faculdades não mudam radicalmente. O medo, a atração do insólito, as chances, o gosto do luxo são molas às quais não se apela em vão. Há contos a escrever para adultos, contos de fadas, quase.
O maravilhoso não é o mesmo em todas as épocas; participa obscuramente de uma classe de revelação geral, de que só nos chega o detalhe: são as ruínas românticas, o manequim moderno ou qualquer outro símbolo próprio a comover a sensibilidade humana por algum tempo. Nestes quadros que nos fazem sorrir, no entanto sempre se pinta a inquietação humana, e é por isso que os levo a sério, que os julgo inseparáveis de algumas produções geniais, as quais, mais que as outras, estão dolorosamente impregnadas dessa inquietação. São os patíbulos de Villon, as gregas de Racine, os divãs de Baudelaire. Coincidem com um eclipse do gosto que sou feito para suportar, eu que tenho do gosto a idéia de um grande defeito. No mau gosto de minha época, procuro ir mais longe que os outros. Para mim, se eu tivesse vivido em 1820, para mim"a freira sangrenta", a mim, não poupar este sorrateiro e banal dissimulons de que fala o periódico Cuisin, a mim, a mim, percorrer em metáforas, como ele diz, todas as fases do "disco prateado". Por hoje, penso num castelo, cuja metade não está obrigatoriamente em ruína; este cabelo me pertence, eu o vejo num sítio agreste, não longe de Paris. Suas dependências não acabam mais e, quanto ao interior, foi terrivelmente restaurado, de modo a nada deixar a desejar, em matéria de conforto. Junto à porta, encoberta pela sombra das árvores, estão os automóveis, estacionados. Alguns de meus amigos aí estão, em permanência: eis o Louis Aragon que parte - ele só tem tempo para cumprimentar-nos; Philippe Soupault se levanta com as estrelas Paul Eluard, nosso grande Eluard, ainda não voltou. Eis Robert Desnos e Roger Vitrac, que decifram no parque um velho edital sobre o duelo; Georges Auric, Jean Paulhan, Max Morise, que rema tão bem, Benjamin Péret, em suas equações de pássaros; e Joseph Delteil; e Jean Carrive; e Georges Limbour (há uma fileira de Georges Limbour); e Marcel Noll; eis T. Traenkel que nos acena de seu balão cativo, Georges Malkine, Antonin Artaud, Francis Gerard, Pierre Naville, J. A . Boiffard, depois Jacques Baron e seu irmão, belos e cordiais, tantos outros ainda, e mulheres deslumbrantes, palavra. Estes jovens não podem se recusar nada, seus desejos são, para a riqueza, ordens. Francis Picabia vem nos visitar e, na semana passada, recebeu-se na galeria dos espelhos um tal Marcel Duchamp que ainda não se conhecia. Picasso caça aí por perto. O espírito de desmoralização ergueu domicílio no castelo, e é com ele que tratamos sempre que há problema de relação com nossos semelhantes, mas as portas estão sempre abertas, e sabeis, não se começa"agradecendo" às pessoas. De mais a mais, a solidão é vasta, não nos encontramos muito. Pois o essencial não é sermos senhores de nós mesmos, das mulheres, do amor também?
Vão atribuir-me uma mentira poética; cada um vai dizer que moro na Rua Fontaine, e que não vai beber desta água. Na verdade! mas este castelo cujas honras lhe faço, tem ele certeza que seja uma viagem? E se, não obstante, o palácio existisse? Meus hóspedes estão aí para responderem por isso; seu capricho é a estrada luminosa que aí conduz. Vivemos de fato à nossa fantasia, quando estamos lá. E como o que um faz poderia incomodar o outro, ali, ao abrigo da procura sentimental e dos encontros ocasionais?
O homem põe e dispõe. Depende dele só pertencer-se por inteiro, isto é, manter em estado anárquico o bando cada vez mais medonho de seus desejos. A poesia ensina-lhe isso. Traz nela a perfeita compensação das misérias que padecemos. Ela pode ser também uma ordenadora, bastando que ao golpe de uma decepção menos íntima se tenha a idéia de tomá-la ao trágico. Venha o tempo quando ela decrete o fim do dinheiro e parta, única, o pão do céu para a terra! Haverá ainda assembléias nas praças públicas, e movimentos dos quais não pensaste participar. Adeus seleções absurdas, sonhos de abismo, rivalidades, longas paciências, a evasão das estações, a ordem artificial das idéias, a rampa do perigo, tempo para tudo! Basta se Ter o trabalho de praticar a poesia. Não é a nós que compete, que já vivemos dela, o esforço de fazer prevalecer o que guardamos para nossa mais ampla inquietação?
Não importa se há desproporção entre esta defesa e a ilustração que vai segui-la. Tratava-se de remontar às fontes de imaginação poética, e mais ainda, ficar aí. Não tenho a pretensão de ter feito isso. É preciso muito domínio sobre si, para querer se estabelecer nestas recuadas regiões onde tudo parece andar tão mal, e com maior razão, para querer aí conduzir alguém. E nunca se tem certeza de aí estar em absoluto. Como não se vai gostar, fica-se disposto a se deter em outra parte. A verdade é que agora uma flecha indica a direção destes lugares e que alcançar a meta verdadeira só depende de resistência do viajante.
Conhece-se, pouco mais ou menos, o caminho percorrido. Tive o cuidado de contar, no decurso de um estudo sobre o caso de Robert Desnos, intitulado: ENTRADA DOS MÉDIUNS, que eu tinha sido levado a"fixar minhas atenções sobre frases mais ou menos parciais, que em plena solidão, quase pegando no sono, ficam perceptíveis para o espírito, sem ser possível descobrir-lhes uma determinação prévia". Eu mal acabara de tentar uma aventura poética, com o mínimo de chances, isto é, minhas aspirações eram as mesmas de hoje, mas eu tinha fé na lentidão de elaboração para fugir a contatos inúteis, contatos que eu reprovava intensamente. Era o pudor do pensamento, de que me sobra ainda alguma coisa. No fim de minha vida, com dificuldade chegarei a falar como falam todos, culpa de minha voz e de meus gestos escassos. A virtude da palavra (da escrita: bem maior) me parecia ligada à faculdade de encurtar de modo marcante a exposição (pois era uma exposição) de alguns poucos fatos, poéticos ou outros, substanciais para mim. Em minha idéia, não era outro o processo usado por Rimbaud. Eu compunha, e o meu empenho de variedade merecia melhor sorte, os últimos poemas do Mont de Pieté, isto é, conseguia tirar das linhas em branco desse livro um partido incrível. Essas linhas eram o olho fechado sobre operações de pensamento, que, julgava eu, deviam ser ocultadas do leitor. Não era trapaça, mas sim, gosto de precipitar as coisas. Eu obtinha a ilusão de uma cumplicidade possível, cada vez menos dispensável para mim. Eu pegara o vezo de afagar imoderadamente as palavras pelo espaço admitido em torno delas, por suas tangências com outras inumeráveis palavras não pronunciadas por mim. O poema FLORESTA-NEGRA marca exatamente este estado de espírito. Passei seis meses a escrevê-lo e, podem acreditar, não descansei um só dia. Mas tratava-se da estima que eu então me dedicava, não é bastante, compreendam. Adoro estas confissões estúpidas. Naquele tempo, a pseudopoesia cubista procurava se implantar, mas saíra desarmada do cérebro de Picasso, e quanto a mim, eu era tido como tão enfadonho quanto a chuva (ainda sou). Eu desconfiava, aliás, que do ponto de vista poético, eu estava no caminho errado, mas eu me safava como podia, desafiando o lirismo, a golpes de definição e de receitas (os fenômenos Dada não tardariam a se manifestar), e fingindo encontrar uma aplicação da poesia na publicidade (eu sustentava que o mundo acabaria, não por um belo livro, mas por uma bela propaganda do inferno e do céu).
Na mesma época, um homem, tão ou mais enfadonho que eu, Pierre Reverdy, escrevia:
A imagem é uma criação pura do espírito. Ela não pode nascer da comparação, mas da aproximação de duas realidade mais ou menos remotas. Quanto mais longínquas e justas forem as afinidades de duas realidades próximas, tanto mais forte será a imagem - mais poder emotivo e realidade poética ela possuirá... etc.
Estas palavras, se bem que sibilinas para os profanos eram indicadores muito fortes, e sobre elas meditei longamente. Mas a imagem era fugidia. A estética de Reverdy, estética toda a posteriori, fazia-me tomar os efeitos pelas causas. Entrementes, fui obrigado a renunciar definitivamente a meu ponto de vista.
Certa noite então, antes de adormecer, percebi, nitidamente articulada a ponto de ser impossível mudar-lhe uma palavra, mas bem separada do ruído de qualquer voz, uma frase bem bizarra que me alcançava sem trazer indício dos acontecimentos aos quais, segundo o testemunho de minha consciência, eu estava preso, nessa ocasião, frase que me pareceu insistente, frase, se posso ousar, que batia na vidraça. Rapidamente tive a sua noção, e já me dispunha a passar adiante quando o seu caráter orgânico me reteve. Na verdade, esta frase me espantava; infelizmente não a guardei até hoje, era algo como:"Há um homem cortado em dois pela janela", mas não poderia haver ambigüidade, acompanhada como estava pela fraca representação visual de um homem andando, e seccionado a meia altura por uma janela perpendicular ao eixo de seu corpo. Fora de dúvida era a simples aprumação no espaço de um homem debruçado à janela. Mas esta janela tendo seguido o deslocamento do homem vi que se tratava de uma imagem de tipo bastante raro e logo pensei em incorporá-la a meu material de construção poética. Assim que lhe concedi este crédito ela deu lugar a uma sucessão quase ininterrupta de frases que não me surpreenderam menos e me deixaram sob a impressão de uma tal gratuidade que me pareceu ilusório o império que até então eu mantinha sobre mim mesmo, e só pensei então em liquidar a interminável disputa travada em mim (Knut Hamsun põe na dependência da fome este tipo de revelação que me assaltou, e talvez não esteja ele errado (o fato é que nessa época eu não comia todos os dias). Com toda certeza são de fato as mesmas manifestações que ele relata nestes termos:
"No dia seguinte acordei cedo. Estava ainda escuro. Meus olhos estavam abertos fazia tempo, quando ouvi o relógio do apartamento inferior bater cinco horas. Quis novamente dormir mas não consegui, eu estava completamente desperto e mil coisas baralhavam na minha cabeça. De repente me vieram uns bons trechos, próprios para utilização num esboço, num folhetim; subitamente, por acaso, achei frases muito bonitas, frases como jamais escreverei. Eu as repetia lentamente, palavra por palavra, eram excelentes. E vinham mais outras. Levantei-me, peguei lápis e papel na mesa atrás de minha cama. É como se eu tivesse rompido uma veia, uma palavra seguia outra, colocava-se em seu lugar, surgiam as réplicas, em meu cérebro, eu gozava profundamente. Os pensamentos me vinham tão rapidamente e fluíam tão abundantemente que eu perdia uma porção de detalhes delicados, porque meu lápis não podia andar tão depressa, e entretanto eu me apressava, a mão sempre em movimento, eu não perdia um minuto. As frases continuavam a brotar em mim, eu estava prenhe de meu assunto".
Apollinaire afirmava que os primeiros quadros de Chirico haviam sido pintados sob a influência de distúrbios cenestésicos (enxaquecas, cólicas).
Tão ocupado estava eu com Freud nessa época, e familiarizado com os seus métodos de exame que eu tivera alguma ocasião de praticar em doentes durante a guerra, que decidi obter de mim o que se procura obter deles, a saber, um monólogo de fluência tão rápida quanto possível sobre o qual o espírito crítico do sujeito não emita nenhum julgamento, que não seja, portanto, embaraçado com nenhuma reticência, e que seja tão exatamente quanto possível o pensamento falado. Parecia-me, ainda me parece - a maneira como me chegara a frase do homem seccionado o comprovava - que a velocidade do pensamento não é superior à da palavra e que ele não desafia forçadamente a língua, nem mesmo a caneta que corre. Foi com estas disposições que Philippe Soupault, a quem eu comunicara estas primeiras conclusões, e eu começamos a escrevinhar, pouco nos importando com o que pudesse suceder literariamente. A facilidade de realização fez o resto.
No fim do primeiro dia podíamos ler umas cinqüenta páginas obtidas por este meio, e começar a comparação de nossos resultados. No conjunto, os de Soupault e os meus mostravam notável analogia: mesmo vício de construção, falhas similares, mas também, de cada lado, a ilusão de um estro maravilhoso, muita emoção, escolha considerável de imagens de uma tal qualidade que não teríamos sido capazes de preparar uma só delas, mesmo com muito empenho, um pitoresco muito especial, e de um lado e de outro, alguma proposição de pungente burlesco. As únicas diferenças entre nossos dois textos me pareceram corresponder essencialmente a nossos temperamentos recíprocos, o de Soupault menos estático que o meu, e se ele me permite esta leve crítica, ao fato de Ter ele cometido o erro de distribuir, ao alto de certas páginas, e sem dúvida por espírito de mistificação, algumas palavras à guisa de títulos. Em compensação, devo-lhe a justiça de dizer que ele se opôs sempre, com toda energia, a qualquer retoque, à mínima correção ao curso de toda passagem desse gênero que me parecia até descabida. Tinha ele toda razão nisso. É com efeito muito difícil apreciar em seu justo valor os diversos elementos presentes, diga-se mesmo, é impossível apreciá-los numa primeira leitura. A vós que escreveis, estes elementos, na aparência, vos são tão estranhos quanto a outro qualquer, e naturalmente desconfiais. Falando poeticamente, eles se reconhecem sobretudo por um alto grau de absurdidade imediata, sendo o próprio desta absurdidade, num exame mais aprofundado, dar lugar a tudo que há de admissível, de legítimo no mundo: a divulgação de certo número de propriedades e de fatos não menos objetivos, em suma, que os outros.
Em homenagem a Guillaume Apollinaire, que morrera há pouco, e que por diversas vezes nos parecia ter obedecido a um arrebatamento desse gênero, sem entretanto ter aí sacrificado medíocres meios literários, Soupault e eu designamos com o nome de SURREALISMO o novo modo de expressão pura, agora à nossa disposição, e com o qual estávamos impacientes para beneficiar nossos amigos. Creio não ser mais necessário, hoje, repisar esta palavra, e que a acepção em que a tomamos acabou por prevalecer sobre a acepção apollinairiana. Ainda com maior razão poderíamos ter-nos apossado da palavra SUPERNATURALISMO, empregada por Gerard de Nerval na dedicatória de Filles de Feu. Com efeito, parece que Nerval possuiu às mil maravilhas o espírito ao qual recorremos, enquanto Apollinaire não possuía senão a letra, ainda imperfeita, do surrealismo, tendo sido incapaz de lhe traçar um esboço teórico que valha a pena. Eis duas frases de Nerval que acerca disso me parecem bem significativas:
Vou explicar-lhe, meu caro Dumas, o fenômeno que você citou acima. Como você sabe, há certos contistas que não podem inventar sem se identificarem aos personagens de sua imaginação. Você sabe com que convicção nosso velho amigo Nodier narrava como ele tivera a desgraça de ser guilhotinado na época da Revolução; ficava-se de tal modo persuadido que se ficava querendo saber como ele conseguira recolocar sua cabeça.
... E já que você teve a imprudência de citar um soneto composto neste estado de devaneio onírico SUPERNATURALISTA, como diriam os alemães, vai ouvi-los todos. Não são nada mais obscuros do que a metafísica de
Hegel ou as MEMORÁVEIS de Swedenborg, e perderiam encanto se fossem explicados, se a coisa fosse possível, conceda-me ao menos o mérito da expressão...
Só com muita fé poderiam nos contestar o direito de empregar a palavra SURREALISMO no sentido muito particular em que o entendemos, pois está claro que antes de nós esta palavra não obteve êxito. Defino-a pois uma vez por todas.
SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral.
ENCICL. Filos. O Surrealismo repousa sobre a crença na realidade superior de certas formas de associações desprezadas antes dele, na onipotência do sonho, no desempenho desinteressado do pensamento. Tende a demolir definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos, e a se substituir a eles na resolução dos principais problemas da vida. Deram testemunho de SURREALISMO ABSOLUTO os srs. Aragon, Baron, Boiffard, Breton, Carrive, Crevel, Delteil, Desnos, Eluard, Gerard, Limbour, Malkine, Morise, Naville, Noll, Péret, Picon, Soupault, Vitrac.
Parece que são, até agora, os únicos, e não haveria engano, não fosse o caso apaixonante de Isidore Ducasse, sobre o qual me faltam elementos. E certamente, não considerando senão superficialmente seus resultados, bom número de poetas poderiam passar por surrealistas, a começar por
Dante, e, em seus melhores dias, Shakespeare. No curso das diferentes tentativas de redução, em que empenhei, do que se chama, por abuso de confiança, o gênio, nada encontrei que se possa finalmente atribuir a outro processo que não seja este.
As NOITES de Young são surrealistas do começo ao fim; infelizmente é um padre que fala, mau padre, sem dúvida, mas padre. Swift é surrealista na maldade. Sade é surrealista no sadismo. Chateaubriand é surrealista no exotismo. Constant é surrealista em política. Hugo é surrealista quando não é tolo. Desbordes-Valmore é surrealista em amor. Bertrand é surrealista no passado. Rabbe é surrealista na morte. Poe é surrealista na aventura. Baudelaire é surrealista na moral. Rimbaud é surrealista na prática da vida e alhures. Mallarmé é surrealista na confidência. Jarry é surrealista no absinto. Nouveau é surrealista no beijo. Saint-Pol-Roux é surrealista no símbolo. Fargue é surrealista na atmosfera. Vaché é surrealista em mim. Reverdy é surrealista em sua casa. Saint-John Perse é surrealista a distância. Roussel é surrealista na anedota. Etc.
Insisto, eles nem sempre são surrealistas, neste sentido que descubro neles um certo número de idéias preconcebidas, às quais, bem ingenuamente, eles se apegavam. Apegavam porque ainda não tinham ouvido a voz surrealista, a que continua a pregar à véspera da morte e acima das tempestades, porque não queriam servir somente para orquestrar a maravilhosa partitura. Eram instrumentos soberbos demais, e por isso nem sempre produziram som harmonioso.
Nós, porém, que não nos dedicamos a nenhum trabalho de filtração, que nos fizemos em nossas obras os surdos receptáculos de tantos ecos, modestos aparelhos registradores que não se hipnotizam com o desenho traçado, talvez sirvamos uma causa mais nobre. Assim devolvemos com probidade o"talento" que nos atribuem. Falem-me do talento deste metro de platina, deste espelho, desta porta, e do céu, se quiserem.
Não temos talento, perguntem a Philippe Soupault:
"As manufaturas anatômicas e as habitações baratas destruindo as mais importantes cidades".
A Roger Vitrac:
"Recém-invocara eu o mármore-almirante (A Mesa de Mármore era um Tribunal instalado no Palácio de Justiça em Paris, realizando suas sessões numa imensa mesa de mármore, que lhe deu o nome; era de sua alçada o julgamento de militares, e sua jurisdição tinha três divisões: o almirantado, as florestas e águas, e a área do condestável) quando este virou nos calcanhares como um cavalo que se empina diante da estrela polar e me indicou no plano de seu chapéu bicorne uma região onde eu devia passar a minha vida".
A Paul Eluard:
"Conto uma história bem conhecida, releio um poema célebre: estou apoiado a um muro, orelhas verdejantes, lábios calcinados".
A Max Morise:
"O urso das cavernas e sua companhia que mia, o volante e seu valete no vento, o grão-chanceler com sua mulher, o espantalho e seu amigo alho, a fagulha com agulha, o carniceiro e seu irmão carnaval, o varredor com o seu tapa-olho, o Mississipi e seu sapo, o coral e o colar, o Milagre e seu santo por favor desapareçam da superfície do mar".
A Joseph Delteil:
"Ai de mim! Creio na virtude das aves. E basta uma pena para me matar de rir!".
A Louis Aragon:
"Durante uma interrupção da partida, quando os jogadores, reunidos, rodeavam a poncheira escaldante, perguntei à árvore se ainda tinha sua fita vermelha".
A mim mesmo, que não pude me impedir de escrever as linhas serpentinas, alucinantes, deste prefácio.
Perguntem a Robert Desnos que, dentre nós, foi talvez quem mais se aproximou da verdade surrealista, aquele que, em obras ainda inéditas e ao longo de múltiplas experiências às quais prestou, justificou plenamente a esperança que eu depositava no surrealismo e me intima a esperar muito dele ainda. Hoje em dia Desnos fala surrealista à discrição. A prodigiosa agilidade de que ele dispõe para seguir oralmente seu pensamento nos vale, quanto nos apraz, discursos esplêndidos, e que se perdem, Desnos tendo mais que fazer do que fixa-los. Ele lê em si como em livro aberto, e nada faz para reter as folhas que se desvanecem no vento de sua vida.



Escrito em: 1924.
1ª Edição: (?)
Tradução de: (?)
Origem da Presente transcrição: (?)Trancrição de: Alexandre Linares.HTML por
José Braz para o Marxists Internet Archive


Outros sites em português sobre surrealismo:


http://www.surrealismo.net/





quinta-feira, 15 de novembro de 2007

CINEMA E REVOLUÇÃO RUSSA





A REVOLUÇÃO DE 1917 E O CINEMA


A Revolução Soviética de 1917 terá sido seguramente dos acontecimentos mais marcantes do século XX, de um ponto de vista social e político, e certamente também um dos que, tendo ocorrido numa época em que já existia o cinema, maior empenho deveria ter provocado no registo de actualidades e documentários, preservando os acontecimentos reais, ou despoletando posteriormente um conjunto de obras de ficção (ou documentário de reconstituição), que permitissem manter viva a chama da Revolução. Assim não aconteceu, todavia.
Há filmes, obviamente. Há documentários coevos. Há ficções posteriores. Mas não há um volume de títulos como seria de esperar, atendendo, ainda por cima, ao facto de o cinema, como arma de agitação política, de manipulação e difusão de ideias e mensagens, ter sido desde sempre olhado como a arte por excelência para servir os desígnios dos bolcheviques. Lenine assim o intuiu, a revolução assim o aplicou, realizadores como Sergei M. Eisenstein, Dziga Vertov, Vsevolod Pudovkin, Alexander Dovzhenko e tantos outros, assim o fizeram (ou procuram fazer, pois cedo se percebeu que a revolução estética não era tolerada pela revolução social, que a dominou e integrou no quadro de uma progressiva “normalização” de linguagem e de intenções, ao serviço do novo poder instituído).
No caso do cinema (agora com cento e pouco anos de História, na altura da Revolução com cerca de vinte anos de vida), raramente, porém, teve a oportunidade de acompanhar uma revolução social e política com a eclosão de novas formas e conceitos estéticos, como no que se refere à Revolução Russa de 1917. Enquanto a sociedade explodia e as leis sociais vigentes eram totalmente submergidas por uma nova classe social que atinge o poder, o cinema teve a oportunidade não só de acompanhar a mudança, como ele próprio mudar com essa mudança. A uma revolução total de cariz social, o cinema responde com uma revolução estética e formal de idêntico perfil. Enquanto o materialismo dialéctico definia regras de conduta política, a montagem cinematográfica inventava esse materialismo dialéctico ao nível das formas. Se o fenómeno social era explicado por “tese, antítese e síntese”, para se concluir que a sociedade avançava historicamente com base nesta progressão, no cinema a ideia vingava de igual forma: um plano (tese) ligado a outro (antítese), impõem uma síntese de significado que não é igual à soma dos dois, mas a algo que ultrapassa essa soma (síntese).
Sergei M. Eisenstein é, neste ponto, um dos cineastas (será mesmo um dos artistas) mais interessantes e criativos do séc. XX, com uma obra que mereceu, e merece ainda, estudos, criticas e análises, aprofundadas e desencontradas por vezes, de maior fôlego e projecção. Ele é um dos mais importantes realizadores cinematográficos de toda a história do cinema, porque ajudou a criar uma linguagem autónoma para a sétima arte, inventando métodos essenciais na criação de filmes, sobretudo no que à montagem diz respeito. Compreendeu ainda que o cinema é uma das mais valiosas formas de comunicação em massa, um dos meios mais prodigiosos para a difusão de mensagens. Não terá inventado a propaganda, mas levou-a ao seu ponto máximo de eficácia no cinema. Não descobriu a manipulação através das imagens em movimento, mas serviu-se dela como nenhum outro até ai o fizera. Teve o mérito de desbloquear um processo, e igualmente o ónus de abrir caminho a toda a demagogia visual que assenta a sua eficácia na forma como as imagens são “preparadas” e “servidas” ao público consumidor.
No início da carreira, as suas obras surgem inseparáveis das suas convicções políticas e da ideologia do regime que ajuda a criar e aceita servir. Eisenstein lutou pela revolução com a convicção do poder das imagens. Ajudou a consolidar o derrube do czarismo e promoveu a ascensão de Lenine que nunca abandonou a visão utilitária do cinema, como veículo preferencial de propaganda política. Por isso Lenine incentivou a criação artística, lançou anualmente produções cinematográficas que se destinavam a difundir os ideais da Revolução e igualmente a promover a discussão entre operários, camponeses, soldados e marinheiros, as bases de apoio da Revolução Bolchevique. Neste aspecto. o “Cine Olho” de Dziga Vertov, levou o cinema, literalmente de comboio, até os locais mais remotos da Rússia onde se rodavam actualidades, se montavam e se projectavam de imediato junto do público que as havia ajudado a conceber. Estas actualidades de agitação política, conhecidas como “agit prop”, funcionavam como elemento catalizador de debates e discussões acaloradas.
Mas muitos outros filmes se iam produzindo, com intenções análogas. Um dos primeiros e mais importantes foi “A Greve” (1925), onde era abordado o caso de uma greve, ainda durante o período czarista, onde se testemunhava o labor dos trabalhadores em busca de melhores condições de trabalho e de vida, em confronto com os patrões, vistos como ditadores capitalistas, tendo como aliado o poder político e militar. O filme não recua perante nenhuma forma de associação de imagens (montagem por atracção) para recriar no espírito do espectador as sensações requeridas. Por vezes as mais primárias, noutros casos bem complexas e elaboradas.
Mais tarde, com “O Couraçado Potenkine”, encomendado pelo governo da ex-URSS, Sergei M. Eisenstein (então com 27 anos) reconstitui um levantamento militar a bordo de um navio de guerra, em Outubro de 1905. “O Couraçado Potenkine”, rodado em três meses, celebrava vinte anos sobre a revolta premonitória contra a tirania dos oficiais superiores, contra a prepotência das instituições. Partindo de uma revolta contra a má alimentação recebida a bordo do navio, o conflito alarga-se até à revolta total que se estende do mar à terra russa, com a famosa sequência da escadaria de Odessa (Ucrânia), quando o couraçado é esperado por populares nesse porto do Báltico, e estes são barbaramente reprimidos pelas tropas do Czar, que arremetem contra os manifestação com invulgar fúria assassina. A imposição de um herói colectivo em detrimento do vulgar herói individual do cinema norte-americano, a clara alusão a (discretos, mas eficientes) dirigentes do partido comunista (que controlam sub-repticiamente as massas e as encaminham no sentido da revolução), a límpida indicação dos inimigos de classe do proletariado (e que são capitalistas, oficiais superiores, o czarismo, enquanto regime politico, a burguesia instalada - caso do médico do navio, dos cozinheiros, etc. -, a igreja), tudo se conjuga para a construção de uma obra de sentido unívoco, fácil de perceber por quem a vê, clara no seu significado e convincente na emoção que desperta.
A nível da montagem este é um filme absolutamente indispensável, um verdadeiro marco na história da cinematografia mundial, uma obra que iria influenciar para todo o sempre a narrativa visual. Neste particular a já citada sequência da escadaria de Odessa é incontornável. Em 2005, oitenta anos depois da sua estreia na Rússia, e 100 anos após os acontecimentos que recriava, o filme foi mostrado na Berlinale numa nova versão, que incluiu, pela primeira vez e sem cortes nem censura, os inter-títulos em russo e as palavras de abertura de Leon Trotsky. Este restauro incluía igualmente vários planos “recuperados” nesta famosa sequência de Odessa. É conveniente referir que não existe nenhuma cópia completa da versão original russa de “O Couraçado Potenkine” tal como foi estreada, pois a obra foi bastante censurado na ex-URSS na década de 20. O restauro foi da responsabilidade da Cinemateca Alemã, com o apoio do Arquivo Federal de Cinema de Berlim e do British Film Institute. A música original de Edmund Meisel também foi recriada por Helmut Imig, dirigindo a German Film Orchestra de Babelsberg.
Pode dizer-se que nos primeiros anos da revolução os cineastas (tal como poetas, escritores, artistas plásticos, homens de teatro…) gozaram de uma certa liberdade criativa e ensaiaram um experimentalismo formal extremamente sedutor. A URSS caminhava na crista das vanguardas europeias. Algo, no entanto, que iria durar pouco. Uma censura feroz abateu-se sobre toda a criação artística, impondo critérios, cortando, mutilando obras, retirando personagens históricos (Leon Trotsky foi o exemplo mais célebre, que “desapareceu” de fotos e filmes, pretendendo-se assim que a sua existência física deixasse de aparecer aos olhos do público). O que de início era o culto do colectivo passou a culto da personalidade e do “herói” bolchevique (o que se tornou demasiado evidente no período estalinista). Da crista da modernidade resvalou-se para o academismo mais conformista, com o conceito de “realismo socialista” a impor regras e convenções.
Voltando à época gloriosa, e a Eisenstein, há que referir finalmente o filme “Outubro” (Oktyabr) que, em 1927, assinalou os vinte anos da Revolução Bolchevique. Partindo de uma obra do jornalista norte-americano John Reed, “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo" (“Ten Days That Shook the World”, mais tarde, em 1981, igualmente na base de “Reds”, de Warren Beatty), “Outubro”, uma encomenda do Sovkino (conselho responsável pelo cinema na URSS), organiza uma panorâmica em forma de epopeia dos dias que levaram à queda do czarismo e a entronização do regime comunista na Rússia. Sergei M. Eisenstein contou com a assistência de Grigori Aleksandrov, que mais tarde iria entregar a Shostokovich a partitura musical que acompanha o filme.
Não forma pacíficos porém os dias da rodagem, com Eisenstein em constante conflito com as autoridades, sobretudo pelas sequências onde aparecia Trotsky. Tratando o filme dos "dez dias que abalaram o mundo" obviamente que Leon Trotsky teria de surgir como personagem central. Mas é em 1927 que Trotsky é expulso do Partido, iniciando-se a “reescrita” da História levado a cabo por Estaline e seus pares. A linha programática estalinista influenciaria o filme de Eisenstein, no qual um terço da película é cortada, por causa de Trotsky, mas também por certas referências a Lenine (vários discursos foram eliminados, com a justificação de que "o liberalismo de Lenine já não era válido”).
Acompanhando cronologicamente os acontecimentos, com o assalto ao Palácio de Inverno como momento dominante, “Outubro” ensaia ainda um experimentalismo formal vibrante, com sequências de grande poder contagiante. A cena que mostra os relógios com horas diferentes em cidades de todo o mundo que depois alinham pela hora de Moscovo é um bom exemplo. Mas globalmente “Oktyabr” é desequilibrado e foi terminado à presa para Eisenstein partir para outra aventura cinematográfica, numa altura em que a agricultura era a nova linha de prioridade do Partido.

A REVOLUÇÃO RUSSA VISTA DO OCIDENTE
Três títulos ocidentais sobressaem entre os que, ao longo das décadas, se ocuparam da Revolução Russa de 1917: “Doutor Jivago”, de David Lean, “Nicolau e Alexandra”, de Franklin Schaffner, e “Reds”, de Warren Beatty.
Boris Pasternak, o autor de “Dr. Zhivago”, foi prémio Nobel de literatura com este romance que esteve na base da adaptação de David Lean (EUA, Inglaterra, 1965). Pasternak provocou uma enorme polémica internacional ao lançar no Ocidente este painel impressionante da vida na Rússia, durante os dias da Revolução Soviética de 1917. Panorâmica de um país em profunda transformação política, económica e social, com os seus excessos e a generosidade do povo, “Dr. Jivago” chamava a primeiro plano a figura de um homem, lutando pela sobrevivência e a dignidade, acompanhando-a com uma história de amor.
Foi com base nesta obra literária que David Lean criou uma superprodução com momentos fulgurantes e a cuidada descrição de uma época de difícil reconstituição. O gosto pela vastidão da paisagem (aqui a paisagem gelada do Norte da Europa, como antes o havia feito com o deserto em “Lawrence da Arábia”, ou o campo de concentração de “A Ponte do Rio Kway”, ou o iria continuar com o misterioso Oriente, em "Passagem Para a Índia), a discrição no esboçar dos conflitos humanos e no despoletar das paixões, o subtil equilíbrio encontrado entre a história individual e o drama colectivo, tudo isto faz de “Dr. Jívago” um belo filme, com excelente adaptação ao cinema do dramaturgo inglês Robert Bolt, ostentando um ou outro senão, entre eles uma certa demagogia nalguns momentos, e sobretudo uma deficiente interpretação, nomeadamente por parte de Ornar Shariff.
A seguir surge “Nicolau e Alexandra”, rodado em 1972. Convirá antes de mais nada sublinhar que Franklin Schaffner foi sempre um cineasta interessante, desde os tempos da sua estreia com “Os Candidatos”, passando por “O Senhor da Guerra”, “O Planeta dos Macacos” ou “Patton”, itinerário donde se retira urna obra bastante medíocre (“O Duplo Homem”). Este “Nicolau e Alexandra” ilude alguma da expecta­tiva que em seu redor se tenha gerado.
Expectativa que só vem demonstrar igualmente a incompetência e incongruência dos critérios da anterior censura portuguesa, uma censura que nem para si própria sabia ser coerente. Na verdade, é algo delirante o que se pode constatar vendo esta superprodução de 1972 que só consegue estrear-se em ecrãs de Portugal em Maio de 1974, em virtude de tantos serem os cortes im­postos pela censura marcelista que a distribuidora portuguesa e produtora americanas se viram forçadas a prescindir da obra. Pois bem, o filme que tanto preocupava a boa consciência dos “pila­res” desta nossa comunidade é, como hoje em dia se pode ver, um bom exemplo de uma visão anti-bolchevique e muito pró-czarista. Ou, de uma forma mais nuanceada, uma obra que critica as transformações revolucionárias e lamenta a sorte das vítimas da Revolução de 1917. Muito longe, portanto, de qualquer apologia comunista que poderia ter sido vislumbrada pela censura de então. Mas calcula-se que a inquietação dos censores fosse tão primária que o simples facto deste filme abordar o caso de uma revolução fosse suficiente para o tornar perigoso. Alguns factos basta serem “nomeados” para se tornarem matéria de risco.
Procurando conciliar a visão psicológica do drama vivido pela família do último czar da Rússia com o painel histórico em que ela se inscreveu, este filme de Schaffner nunca logra harmonizar plenamente o individual e o colectivo, muito embora se possa reconhecer que ao nível da reconstituição histórica factual a tarefa tenha sido conseguida. É possível que os factos, as datas, os acontecimentos não andem longe de uma qualquer verda­de histórica, mas não é aí que este filme fraqueja. Como produto de uma época onde predominam ainda resquícios da “Guerra Fria”, ideológica e como sempre redutora, “Nicolau e Alexandra” resulta um documento de uma certa de­magogia, tanto na forma como se aproxima do drama íntimo da família impe­rial como na maneira como de­senha o perfil dos chefes revo­lucionários, com Lenine à fren­te. Por exemplo: quase todos os militan­tes e simpatizantes bolcheviques são rostos patibulares, homens cruéis, sangrentos, sequiosos de poder. Neste panorama caótico e confuso, o czar Nicolau e o seu sucessor Kerenski são os únicos que revelam ain­da algumas facetas de de­cência humanitária.
Mas o drama maior deste filme reside no facto de, apesar de abordar um acontecimento que transformou toda a história da Humanidade, o faz pelo lado da pequena história. Não há personagens particularmente interessantes, como seres humanos, há apenas silhuetas a que falta densidade psicológica e força interior (muito embora os actores não sejam medíocres, mas são mal servidos pelos papeis que lhe conferiram). Não se pode dizer que este facto advenha da própria natureza colectiva da revolução em questão (Serguei Eisenstein criou, como vimos, monumentais painéis dedicados à causa colectiva, basta ver “O Couraçado Potenkine”). Não se pode concluir, portanto, que este seja um filme onde o homem comum assume um papel central na História e que, por isso mesmo, perca interioridade e ganhe força na sua acção exterior. O que acontece é que é um filme menor sobre um acontecimento que o transcende e limita. “Doutor Jivago” ou “Reds” são, neste aspecto, filmes muito mais convincentes e interessantes. Apesar de não podermos recusar alguma qualidade a "Nicholas and Alexandra", estas três horas de espectáculo nem sempre são muito atractivas, nem de um ponto de vista meramente espectacular. Como dizia Roger Ebert, num texto dedicado ao filme, "Nicholas and Alexandra" parecia dar razão ao produtor Jack L. Warner (que não se cansava de protestar quando lhe apresentavam novos projectos de “época”): "Don't send me any more pictures where they write with feathers." Por vezes o filme histórico tem destas coisas.

John Reed, americano, jornalista e escritor, homem de pensamento socialista, que percorreu o mundo em busca de reportagens e conhecimentos, que viveu a Revolução Mexicana junto de Zappata e Villa, e sentiu no corpo a Revolução de Outubro, falecido aos 33 anos, com um ataque de tifo, numa enfermaria soviética, único americano a ser enterrado na Praça Vermelha, com as honras de herói da Revolução, é, obviamente, uma personagem apaixonante. Digamos mesmo que apaixonante sob diversos pontos de vista: por um lado, ao nível do seu comportamento pessoal; por outro, no plano das suas relações mais íntimas, quer com a mulher, Louise Bryant, quer com o universo intelectual, político e cultural americano e soviético da época; finalmente, porque tendo atravessado um período particularmente conturbado da história contemporânea (as revoluções mexicana e soviética, as lutas sindicais e políticas na América que conduzem à formação do Partido Comunista Americano) dele dá um testemunho vivo e poético, de rara qualidade documental e literária.
Não é por isso estranho que o cinema se tenha lembrado de John Reed. De que tenhamos conhecimento (para lá do já referido “Outubro”, de Eisenstein), ele inspirou um belíssimo trabalho do mexicano John Leduc, ”Reed, México Rebelde”, mas também a obra de Warren Beatty, tendo igualmente despertado o interesse de Serguei Bondarchutk, na URSS, que, com actores ocidentais (John Reed é protagonizado por Franco Nero), se encarregou de estabelecer certamente (não vimos!) uma biografia oficial do já lendário autor de “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, texto que Lenine prefaciou com a recomendação de que deveria ser “publicado em milhões de exemplares e traduzido em todas as línguas”. Recomendação que se cumpriu, apesar do boicote que suportou durante vários anos, quer a Ocidente, quer na própria URSS (Estaline não gostava muito desta crónica heróica da Revolução, onde o seu nome quase não aparece, em contraste flagrante com os de Lenine eTrotsky).
"Warren Beatty, actor de tradição liberal, que muitos recordam de “Bonnie e Clyde”, que outros associam a imagem irrequieta de sua irmã Shirley Mac Laine, que alguns lembram sua estreia na realização com “O Céu Pode Esperar”, é aqui a vedeta maior deste projecto ambicioso e temerário para as tradições de Hollywood. Ele é o argumentista (de colaboração com Trevor Griffiths), o produtor, o realizador e o protagonista de “Reds”. “Reds” é a designação (pejorativa) que os americanos dão aos “vermelhos”, nela incluindo comunistas, socialistas, anarquistas, sindicalistas, isto é, toda a esquerda e organizações laborais com ela aparentadas. Na década de 50, em plena caça “ás bruxas” de Mac Carty, os “reds” foram perseguidos de forma sistemática e legalmente organizada mas, no consciente colectivo da América, essa perseguição data de tempos remotos (mesmo nos tempos da conquista de novas fronteiras ela já existia, basta recordar “As Portas do Céu”, de Cimino).
Tratava-se, portanto, de um projecto arrojado, mesmo com o seu quê de provocatório, traçar a biografia de John Reed no quadro da produção de Hollywood, inclusive contando cora um orçamento de cerca de 40 milhões de dólares, um dos maiores, senão o maior de sempre (nessa altura). Tudo isto para erguer o retrato de um homem, é certo (um heróico aventureiro, na melhor tradição americana), mas igualmente oferecer um vasto painel de uma época (os anos 10 na América, a Revolução na URSS). Difícil era estabelecer um equilíbrio plausível entre a figura e a época, sem que umas à outra se abafassem por completo. Warren Beatty consegue-o e vai mais longe. Servindo-se de vários testemunhos de pessoas que conheceram John Reed (testemunhos recolhidos desde 1972, todos eles enquadrados sob um mesmo ângulo, contra, um fundo negro e neutro), o realizador vai alternando a reconstituição com o comentário (um comentário que não é unidireccional, que flutua em função das diferentes opiniões, por vezes contraditórias, das testemunhas inquiridas), adquirindo a obra uma toada reflexiva que, todavia, não a impede também de funcionar emocionalmente, galvanizante e epopeica, intimista e secreta quando é caso disso.
Com momentos admiravelmente conseguidos (toda a introdução americana é notável de autenticidade e vigor; a sequência que assinala a Revolução Soviética, mesclando a Revolução nas ruas e a reaproximação entre Reed e Louise Bryant, é igualmente excepcional no êlan que transmite; o “comboio da História”, marchando ao som da “Internacional”, é outro momento brilhante, bem como o seu amargo regresso á “gare” de Moscovo; tudo o que se prende ao triângulo Reed-Bryant-O'Neil é particularmente bem dado, com uma sensibilidade e pudor assinaláveis), “Reds”, nas suas 3 horas e 20 minutos de super espectáculo, relembrando aqui e ali o painel plástico de “Doutor Jivago”, mas igualmente a viagem interior de “Lawrence da Arábia”, mostra-nos um cineasta que se aposta por inteiro naquilo que faz, um Warren Beatty de espírito irreverente e nada acomodatício, que lutou por nos oferece “o seu filme”, sobre o “seu herói”, com uma dignidade de olhar e uma segurança de estilo que fascinam, É evidente que a seu lado teve homens da competência de um Vittorio Storaro (na fotografia, toda ela quente e voluptuosa), um director artístico corno Simon Holland, uma montadora com a imaginação e “timing” da experiente Dede Ailen, um compositor com a riqueza de Stephen Sondheim. Mas não só. Ainda seu lado, mas frente à câmara, uma actriz comovente de sinceridade e fulgor, essa espantoso Diane Keaton, que com um olhar e um sorriso revela a força do seu talento, ou ainda um notável Jack Nicholson, uma segura e austera Maureen Stapleton, e também Edward Herrraan, Paul Sorvino, Jerzy Kosinski, entre tantos outros, que ajudam a fazer de “Reds” um belo e apaixonante filme de amor e revolução.
A REVOLUÇÂO RUSSA DE 1917 NO CINEMA

PRINCIPAIS TÍTULOS:

OUTUBRO (Oktyabr), de Sergei Eisenstein e Grigori Aleksandrov (URSS, 1927), com Grigori Alexandrov, Nikandrov, N. Popov, Boris Livanov.

O COURAÇADO POTENKINE (Battleship Potemkin), de Sergei Eisenstein e Grigori Aleksandrov (URSS,1925), com Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky, Grigori Aleksandrov, Ivan Bobrov, Mikhail Gomorov, Aleksandr Levshin, N. Poltavseva, Konstantin Feldman, Prokopenko, A. Glauberman, Beatrice Vitoldi.

NICOLAU E ALEXANDRA (Nicholas and Alexandra), de Franklin Schaffner (EUA, 1971), com Michael Jayston (Tsar Nicholas), Janet Suzman (Tsarina Alexandra), Tom Baker, Harry Andrews, Jack Hawkins, Laurence Olivier, Michael Redgrave, Alexander Knox, Curt Jurgens.

REDS (Reds), de Warren Beatty (EUA, 1981), com Warren Beatty, Diane Keaton, Edward Herrmann, Jerzy Kosinski, Jack Nicholson, Paul Sorvino, Maureen Stapelton, Nicolas Coster, Gene Hackman, William Daniels, Max Wright, M. Emmet Walsh, Ian Wolfe, Bessie Love, George Plimpton, Dolph Sweet, Josef Sommer.

DR. JIVAGO (Dr. Zhivago) de David Lean (EUA, 1965), com Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin, Tom Courtenay, Alec Guiness, Siobhan McKenna, Ralph Richardson, Rod Steiger, Rita Tushingham, Adrienne Corri, Geoffrey Keen, Jeffrey Rockland, Klaus Kinski, Jack Mac Gowran, Tarek Sharif.

VERMELHOS E BRANCOS (Csillagosok, katonák ou The Red and the White), de Miklós Jancsó (Hungria, 1967), com József Madaras, Tibor Molnár, András Kozák, Jácint Juhász, Anatoli Yabbarov, Sergei Nikonenko, Mikhail Kozakov, Bolot Bejshenaliyev, Tatyana Konyukhova, Krystyna Mikolajewska, Viktor Avdyushko, Gleb Strizhenov, Nikita Mikhalkov.

OUTRAS OBRAS INTERESSANTES:
(não directamente ligadas aos dias da Revolução de Outubro, mas a acontecimentos que a precederam)

ANIMAL FARM, de Joy Batchelor John Halas (Inglaterra, 1955) 72min

ANIMAL FARM, de John Stephenson (Inglaterra, 1999), TV 91mins

THE END OF ST. PETERSBURG, de Vsevolod Pudovkin (URSS, 1927), com Vsevolod Pudovkin, Nikolai Khmelyov

ANASTÁSIA (Anastasia), de Don Bluth, Gary Goldman (EUA, 1997), com vozes de Meg Ryan, John Cusack, Kelsey Grammer, Angela Lansbury, Christopher Lloyd, Hank Azaria, Bernadette Peters, Kirsten Dunst, Andrea Martin, Jim Cummings, Liz Callaway, Lacey Chabert, Jonathan Dokuchitz.

ANASTASIA: THE MYSTERY OF ANNA, de Marvin J. Chomsky(EUA, 1986), com Amy Irving, Olivia de Haviland, Omar Sharif, Jan Niklas, Claire Boom, Edward Fox, Elke Sommer, Susan Lucci, Nicolas Suroby.

ANASTÁSIA (Anastasia), de Anatole Litvak (EUA, Inglaterra, 1956), com Ingrid Bergman (Anastasia), Yul Brynner, Helen Hayes, Akim Tamirfoff, Martita Hunt, Felix Aylmer, Natalie Schafer, Ivan Desny

FRIDA (Frida), de Julie Taymor (2002), com Salma Hayek, Alfred Molino, Geoffrey Rush, Ashley Judd

RUSSIAN ARK, de Aleksandr Sokurov (2002), com Sergei Dontsov, Mariya Kuznetsova, Leonid Mozgovoy, Mikhail Piotrovsky, David Giorgobiani, Aleksandr Chaban, Lev Yeliseyev, Oleg Khmelnitsky, Alla Osipenko, Artyom Strelnikov, Tamara Kurenkova, Maksim Sergeyev, Natalya Nikulenko, Yelena Rufanova, Yelena Spiridonova.

O ASSASSINATO DE TROSTY (The Assassination of Trotsky), de Joseph Losey (Inglaterra, 1972), com Richard Burton (Leon Trotsky), Alain Delon (Frank Jackson), Romy Schneider (Gita Samuels), Valentina Cortese (Natalia Sedowa Trotsky), Enrico Maria Salerno (Salazar), Luigi Vannucchi (Ruiz), Duilio Del Prete (Felipe), Jean Desailly (Alfred Rosmer), Simone ValPre (Marguerite Rosmer), Carlos Miranda (Sheldon Harte), Peter Chatel (Otto), Michael Forest (Jim), Marco Lucantoni (Seva), Claudio

CHAPAYEV (1934)

NENAVIST (Hatred) (1975)

SEDMAYA PULYA/СЕДЬМАЯ ПУЛЯ (The Seventh Bullet)

OS COSSACOS (The Cossacks), de Giorgio Rivalta (Itália, 1959), com Edmund Purdom, John Drew Barrymore, Giorgia Moll, Massimo Girotti

HIS WIFE'S DIARY, de Aleksei Uchitel (URSS, 2000), com Andrei Smirnov (Ivan Bunin), Galina Tyunina (Vera, his wife), Olga Budina (Galina Poltnikova), Yevgeni Mironov (Leonid Gurov)

TERRA (Earth), de Alexander Dovzhenko (URSS, 1930), com Semyon Svashenko, Stepan Shkurat, Mikola Nademsky, Yelena Maximova

FALL OF EAGLES, de Stuart Burge (1974) (mini série de TV), com Tony Jay, Charles Kay, Gayle Hunnicutt, Michael Aldridge, Frederick Alexander, John Phillips, Kenneth Colley, Michael Bryant, Hugh Burden, Patrick Stewart, Michael Kitchen, Jim Norton, Miles Anderson, Laurence Naismith, Peter Woodthorpe, Pamela Brown, Susan Tracy, Ann Castle, Rachel Gurney, Diane Keen, , Irene Hamilton, Maurice Denham, Colin Baker, Barry Foster, Denis Lill, Gemma Jones, Curd Jürgens, Michael Bates, Marius Goring, John Robinson, John Bennett, Tom Criddle, Mavis Edwards, Perlita Neilson, Frank Thornton, Gemma Jones, Michael Hordern.

DERZU UZALA, A ÁGUIA DA ESTEPE (Dersu Uzala), de Akira Kurosawa (URSS, 1975), com Maksim Munzuk, Yuri Solomin, Svetlana Danilchenko, Dmitri Korshikov, Suimenkul Chokmorov, Vladimir Kremena, Aleksandr Pyatkov. 136 mins.

A MÃE (Mother), de Vsevolod Pudovkin (URSS, 1926),

O BARBEIRO DA SIBÉRIA (Sibirskiy tsiryulnik ou Barber of Siberia), de Nikita Mikhalkov (URSS, 1998) , com Julia Ormond, Richard Harris, Oleg Menshikov, Aleksei Petrenko, Marina Neyolova, Vladimir Ilyin, Daniel Olbrychski, Anna Mikhalkova, Marat Basharov, Nikita Tatarenkov, Artyom Mikhalkov, Yegor Dronov, Avangard Leontyev, Robert Hardy, Elizabeth Spriggs.

A GREVE (Strike), de Sergei Eisenstein (1924), com Grigori Alexandrov, Maxim Strauch, Mikhail Gomarov, Alexander Antonov, Judith Glizer

LENIN IN PARIS (1980)

RASPUTIN, de Uli Edel (1996), com Alan Rickman, Greta Scacchi, Ian McKellen, David Warner, John Wood, James Frain, Ian Hogg, Sheila Ruskin, Peter Jeffrey, Freddy Findlay, Julian Curry.

RASPUTIN, de Elem Klimov (URSS, 1985), com Alexei Petrenko (Rasputin), Anatoly Romashin (Czar Nicholas II), Velta Linne (Czarina Alexandra), Alice Freindlikh (Anna Vyrubova).

AGONY: THE LIFE AND DEATH OF RASPUTIN (1975)

I KILLED RASPUTIN, de Robert Hossein (1967), com Gert Frobe, Geraldine Chaplin, Robert Hossein, Peter McEnery.

RAPUTINE, O MONGE LOUCO (Rasputin - the Mad Monk), de Don Sharp (Inglaterra, 1966), com Christopher Lee, Barbara Shelley, Richard Pasco, Francis Matthews, Suzan Farmer, Nicholas Pennell, Renee Asherson, Derek Francis, Alan Tilvern, Joss Ackland, John Welsh, Robert Duncan, John Bailey.

NIGHTS OF RASPUTIN, de Pierre Chenal (França, 1960), com Edmund Purdom, Giulia Rubini, John Drew Barrymore, Jany Clair.

RASPUTIN AND THE EMPRESS, de Richard Boleslavsky (1932), com John, Ethel e Lionel Barrymore, Ralph Morgan, Diana Wynyard, Tad Alexander, C. Henry Gordon, Edward Arnold, Jean Parker.

THE END OF ST. PETERSBURG, de Vsevolod Pudovkin (URSS, 1927), com Vsevolod Pudovkin, Nikolai Khmelyov

ARSENAL, de Dovzhenko (URSS, 1928)

DVADTSAT SHEST KOMISSAROV (1933)

PADENIE DINASTII ROMANOVYKH (1927)

SEDMOY SPUTNIK (1967)

THE WORLD AND ITS WOMAN (1919)

WORLD AND THE FLESH (1932)

ZOYA, de Richard A. Colla (EUA, 1995) (TV), com Melissa Gilbert, Bruce Boxleitner, Denise Alexander, Don Henderson, Zane Carney, Taryn Davis, David Warner, Diana Rigg, Peggy Cass, Jane How, Richard Durden, Samuel West, Brian A. Williams, Margaret Illmann, etc. 171 min
Segundo romance de Danielle Steel: uma jovem condessa russa escapa da revolução de 1917 e recria uma nova vida na América.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

terça-feira, 6 de novembro de 2007

MAURICE STILLER


The Saga of Gosta Berling

Sir Arne's Treasure

Swedish pioneer Mauritz Stiller has never been completely forgotten, but the majestic epics he made in his homeland before disastrously (for him) escorting Greta Garbo to Hollywood have been rarely seen since. Sir Arne's Treasure (1919) and The Saga of Gosta Berling (1924) are giant, undulating tales of greed, lust, slaughter, and salvation, set in a perpetual winter and boiling with Stiller's restless pacing. Far from mere scenery, ice is a plot factor: Set in the 16th century, Treasure begins with a snowy massacre and famously climaxes with a funeral march across a glacier. The three-hour, 19th-century Berling tracks the pilgrim's progress of an alcoholic defrocked priest (Lars Hanson) whose fate intersects with a young Italian wife (Garbo), with whom he is chased, in a breathtaking sequence, across a frozen lake by a pack of wolves. Credit should go, and rarely has, to Nobel-winning source-novelist Selma Lagerlöf, whose gargantuan melodramas perfectly fit the vocabulary and shorthand sweep of silent cinema.
in The Village Voice

SITES SOBRE O EXPRESSIONISMO


Alguns sites a consultar sobre o Expressionismo:
Sobre O Anjo Azul:

terça-feira, 30 de outubro de 2007

EXPRESSIONISMO E WERNER HERZOG


WERNER HERZOG E O NOVO CINEMA ALEMÃO
1. REFERÊNCIAS HISTÕRICAS

O cinema alemão nunca foi um cinema de características discretas, límpidas, serenas. Nunca foi (como quase nunca o foi qualquer outra forma de expressão artística germânica) um cinema diurno, solar, aberto. Pelo contrário: como toda a cultura alemã, também ele se encontra envolvido numa atmosfera noc­turna, povoado de temores e terrores, épico e brumoso, jogando secretamente com os mais distantes contrastes, numa dialéctica imprecisa, romântica e idealista, aqui e ali de rigorosa anotação realista, mas dependente globalmente de uma menta­lidade exultante e agressiva, apaixonada e irracionalista.

ANTECEDENTES

Até fins da primeira década deste século, o cinema alemão viveu subsidiário de uma influência francesa do “film d’art”. Em 1912, “O Estudante de Praga”, de Paul Wegener, parece indicar o início de uma autonomia germânica, em matéria cinematográfica, mas a dependência económica de estúdios dinamarqueses (“Nordisk”) é flagrante. A guerra de 1914-1918 irá retardar a eclo­são de um cinema de raiz nacional. Será só em fins de 1918 que o dispositivo indus­trial do cinema alemão se põe em andamento, sobretudo através de medidas governamentais de auxílio à pro­dução e à reestruturação dos estúdios (com a criação da “Uníversum Filme Aktiengesellschaft”, mais conhecida por “UFA”). Acabada a guer­ra, com o país arruinado, e desfeitos (ou adiados) os sonhos, o cinema aparece para os alemães como uma forma de recon­quista do crédito perdido no exterior e da auto-confiança nos valores eternos da saga germânica. Os filmes de grande espec­táculo, de tradição italiana, estiveram então em moda e aí se revela Ernst Lubitsch. “O Gabinete do Dr. Cagliari” é de 1920. Robert Wiene, o seu autor, associa o cinema a formas de expres­são teatrais, sobretudo á escola de Max Reinhardt (director do Deutscher Theatre). O cinema começara a atrair os intelectuais de vanguarda e, entre 1920 e 1930, vamos assistir ao desenrolar do seu período áureo. “Expressionista”, “caligarista”, o cinema joga com elementos essencialmente teatrais, como o cenário, a ilumi­nação, o tipo de representação do actor... O espírito alemão res­surge. Wagner, os Nibelungos, Nietzsche estão presentes por detrás de obras como “O Golem” (Wegener), “Nosferatu, O Vam­piro”, “O Último dos Homens”, “Tartufo” ou “Fausto” (Murnau), “As Três Lâmpadas”, “O Doutor Mabuse”, “Os Niebe­lungos”, “Metrópolis”, “Os Espiões”, “Uma Mulher na Lua” (Fritz Lang), “O Museu das Máscaras de Cera” (Leni), “Rua sem Sol”, “Três Páginas de um Jornal”, “Os 4 de Infantaria”, “Ópera de Três Vinténs” ou “Tragédia a Mina” (Pabst), “Variedades” (Dupont), “O Canto do Prisioneira” (May), “O Anjo Azul” (Sterberg), etc.
A partir de 1924 será, porém, de referir, simultaneamente com o desenvolvimento do expressionismo, uma nova corrente, conhecida por “Kammerspiel”, que irá marcar a sobrevivência de uma raiz social e realista, ao longo de todo o cinema germânico (veja-se, sobre este aspecto, o volume de Francis Courtade, Ray­monde Borde e Freddie Buache, “Le Cinema Realiste Allemand”, ed. Serdoc). Pondo de parte os pesadelos fantásticos e a ameaça de monstros sobrehumanos, o “Kammerspiel” chama a atenção para pequenos ambientes fechados, zonas de enclausuramento, ana­lisados de um ponto de vista psicológico. São exemplos desta corrente “Rail” e “A Noite de São Silvestre”, ambos de Lupu Pick, ou “A Rua”, de Paul Grune. Aliás, a partir de certa altura, o expressio­nismo e o “Kammerspiel” parecem conjugar-se, aparecendo obras que denunciam uma influência de ambos os movimentos, caso de “Variedades”, “O Último dos Homens”, “Rua sem Sol” ou esse brilhante “Anjo Azul”...
Enquanto a República de Weímar deixa à deriva os alemães, a arte aparece como única forma de resistência à inflação, à miséria, à prostituição, ao desemprego. À revolta do alemão con­tra os Deuses, segue-se a revolta contra o Mal, enquanto enti­dade indefinível, indecifrável, metafísica. O sonho e o pesadelo, o lirismo e o macabro reaparecem como armas de defesa, projécteis de alerta. O cinema atravessa uma das épocas gloriosas do fantástico. Os terrores nascem do nada, de monstros ignotos, de presenças não localizáveis, de tiranos dementes, de cientistas loucos, de dragões mitológicos...
A partir de meados de 30, com a ascensão do nacional-socialismo, o cinema de raiz expressionista cede o lugar a uma produção oficial que enaltece a raça eleita, que difunde as máxi­mas do nazismo, que orienta as perseguições a minorias, que glorifica as virtudes militaristas de um povo “nascido para o Impé­rio”. “O Triunfo da Vontade” e “Os Deuses do Estádio” (de Leni Riefenshal), “O Jovem Hitleriano Quex” (Steinhoff), “O Judeu Suss” (Veit Harlon) são alguns dos muitos títulos possíveis de citar na enu­meração de uma cinematografia de inspiração nazi.
O fim da Segunda Guerra Mundial transporta consigo a desilusão, o desespero, de novo as ruínas, de novo a fome, a miséria, o desemprego, a inflação. A Alemanha perde as ilusões e em compensação é invadida por planos de reconstrução que representam uma hipoteca aos vencedores. Os americanos insta­lam-se. O cinema passa a ser algumas comédias sentimentais, meia dúzia de reconstituições ditas históricas, melodramas desviacionistas... Certos cineastas procuram manter a dignidade. São eles Staudte (“Os Assassinos Estão Entre Nós”, “Serenata de Canhões”), Kautner (“O General do Diabo”, “A Última Ponte”, “Nem Tambores, Nem Trompetas”), Siodmak (“Os Ratos”, “Os SS Atacam de Noite”), May (“08/15”), Pabst (“O Fim de Hitler”). Muitos, exilados durante o período hitleriano, não regressam mais. Outros, como Lang, voltam para relembrarem avisos: “O Diabólico Dr. Mabuse”. Entretanto, os anos 50 passam penosamente. O cinema alemão é um vazio inqualificável. As revelações mais ou menos jovens são escassas. O caso de Rolf Thiele, ainda que académico e por vezes enfadonho, é quase único. Dele haverá a referir: “Rosemary entre as Homens” (1958), “Lulu” (1962), “Das Schwarzweissrote Himmelbett” (1963), “Tónio Kro­ger” (1964), e “Walsungenblut” (1965). Outros nomes revelados: Bernard Wicki, em quem se chegou a depositar grandes esperan­ças, com “A Ponte” (1959) ou “O Milagre do Malaquias” (1960), Michael Pfleghar com “O Agente Secreto 007” (1965), curiosa sátira aos filmes de espionagem, e Bel Ami 2000 (1966), Georg Tressler (sobretudo “Endstation Liebe”), Herbert Vesely, de formação literá­ria e evidente pretensionismo formal, de quem serão de salientar algumas médias metragens: “Nicht Mehr Fliehen” (1954), “Und die Kinder Spielen so Cem Soldaten” (1961), “An Diesen Abensen” (1962), etc., e também Ottomar Dommick e Ferninand Khitti, o pri­meiro, neurologista, que realizou “Jonas” (1960) e “Ohne Datum” (1962), o segundo, considerado um dos mais importantes realiza­dores de um certo tipo de cinema experimental, sendo autor de “A Estrada Paralela” (1961), “Auf Geth’s” (1955), “Fogo nas Margens do Ródano” (1956) e “A Banda Mágica” (1959), todos eles importantes documentos cinematográficos, no dizer de Francis Courta­de.
Em inícios da década de 60, o milagre económico alemão começa a demonstrar o falência dos princípios porque se nortea­ra. A indústria cinematográfica - no caso, o exemplo que mais interessa aqui referir - tropeçara definitivamente e caíra nas armadilhas que ela própria criara. Parecendo renascer entre 1950 e 1958 (o número de salas passara de 4000 para 7000), afun­dava-se agora de forma calamitosa e irreversível nos quadros de uma indústria tradicional. Se, em 1958, a Alemanha Federal produzira 98 filmes, em 1962 este número decrescera para 43. Nou­tros campos, o ambiente não era mais optimista: o número de espectadores baixava anualmente de forma vertiginoso (40%, em cinco anos), as receitas caíram céleres (em quatro anos de 173 para 78 milhões de marcos), o número de salas que fechavam as por­tas aumentava (300 por ano), as casas produtoras reduziam-se em 50%.
Em 28 de Fevereiro de 1962, durante as VII Jornadas da Curta Metragem, em Oberhausen, vinte e seis personalidades ligadas ao cinema alemão subscreviam uma declaração de prin­cípios, que viria a ser conhecida pelo “Manifesto de Oberhausen”, e que constituiria um marco decisivo no futuro da cinematografia germânica. Dizia o manifesto:
“O fracasso do cinema convencional alemão desloca final­mente a base económica para uma das posições intelectuais geralmente desconsideradas. Deste modo, o Novo Cinema dis­põe de possibilidades de conseguir vitalizar-se.
“Como noutros países, também na Alemanha a curta-metra­gem se converteu em escola e campo experimental para a longa-metragem.
“Manifestamos a nossa pretensão de criar um novo cinema alemão. Este novo cinema exige novas liberdades. Liberdade em relação às influências do comércio. Liberdade em relação aos convencionalismos usuais do ramo. Liberdade em relação à tutela de certos interesses.
“Temos, relativamente à produção do novo cinema alemão, ideias concretas de tipo intelectual, formal e económico. Estamos dispostos a suportar riscos económicos em comum. O velho cinema está morto. Creiamos no novo”.
Entre os vinte e seis signatários, alguns nomes que se torna­riam depois primeiras figuras desse novo cinema: Alexander Klu­ge, Franz-Josef Spieker, Herbert Vesely, Ferdinand Khiti, Edgar Reitz, Peter Shamoni, Heinz Tichawsky, como realizadores, e Bob Howver, Hans-Jurgen Pohland e Hora Senft, como produtores.
Um ano depois, os signatários de Oberhausen tentam criar uma Fundação do Novo Cinema Alemão, mas a tentativa não se concretiza. O Estado respondeu concedendo prémios de 200000 marcos a um certo número de argumentos que lhe foram dirigidos (muitos dos quais nunca mais realizados). O espírito de Ober­hausen não desapareceria, mas três ou quatro anos se irão pas­sar até se concretizar de forma palpável.
Entretanto, em Fevereiro de 1965, o Ministério do Interior do governo de Bona, investe 5 milhões de marcos na criação do “Kuratoriun Junger Deutscher Film”, importância essa dividida em subvenções de 300000 marcos cada. Alexandre Kluge seria o pri­meiro beneficiado e daí nasceria “Anita G”.
Em 1966, cria-se em Berlim uma Academia de Cinema e Televisão (1 de Janeiro de 1966) e, em Ulm, o Instituto de Reali­zação Cinematográfica. Ainda em 1966, um grupo de cineastas funda uma cooperativa cuja intenção primordial era retomar e desenvolver o espírito do “Manifesto de Oberhausen”. Seria tam­bém em 1966 que, no Festival de Cannes, o cinema novo alemão faria a sua apresentação oficial, projectando três obras decisivas: “Der Junge Torless”, de Volker Schlondorff, “Es”, de Ulrich Shamoni e “Nicht Versohnt”, de Jean Marie Straub. Em Veneza, por seu turno, surgiria “Abschield von Gestem” (Anita G,), de Alexander Kluge.
Volker Schlondorff estagiara alguns anos em França, como assistente de Resnais, Malle e Jean Pierre Melville. Na Alemanha, estreara-se em 1960, com uma curta-metragem (“Wen Kummert’s”) e o seu primeiro filme de fundo adaptava uma novela de Robert Musil, “O Jovem Torless”, cuja acção decorre nos anos 30. Num colégio de rapazes, um microcosmo que irá explicar a génese do nazismo. Neste universo concentracionário onde se movem ele­mentos de uma média e alta burguesia (professores e alunos, filhos das “melhores” famílias alemãs), iremos encontrar os estig­mas que caracterizariam o nacional-socialismo.
Torless, “espectador” desde a sua entrada no colégio (uma longa panorâmica, ao longo das casas da aldeia permite-nos, a nós e a ele, descobrir um outro mundo, coexistindo em simultâneo com o internato), irá assistir, aristocraticamente, a uma autêntica escalada de violência e perversidade que culminará em cenas do maior sadismo, impostas em nome de uma maioria privilegiada e dominadora, sobre minorias desarmadas, como é caso de Basi­ni, um colega de origem judaico, que é apanhado a roubar e sobre o qual se exercem, posteriormente, as mais cruéis e degra­dantes “experiências”.
Ao lado de Beineberg e de Reiting (mentor teórico do nacio­nal-socialismo e sua prática), Torless surge-nos como o intelectual aristocrata que tenta não “sujar as mãos”, mantendo-se um pouco alheio a toda a tragédia a que vai assistindo, mais ou menos impávido. Da sua permanência no colégio, Torless recor­dará unicamente a sua passagem por casa de Bozena, uma mar­ginal. Como muitos dos “bons” intelectuais de origem burguesa, Torless descobriu a brutalidade do nazismo, teve consciência do seu perigo e, como solução para o seu caso pessoal, emigra.
Schlondorff, para além de analisar uma situação específica que iria justificar o aparecimento do nazismo, não deixa de apon­tar o comportamento demissionàrio de grande parte de intelec­tualidade alemã que preferiu a fuga ao confronto directo. Um belo filme, de tons cinzentos, de atmosfera pesada, de prenúncios trágicos.
Ulrich Schamoni, um dos quatro irmãos Schamoni, filho de realizador, operador e montador Vitor Shamoni, afirmara-se como escritor e documentarista, antes de se estrear no filme de fundo “Es” (“Isto Aconteceu”) prenuncia uma outra via do novo cinema alemão, interessando-se pelos problemas da juventude contemporânea e as dificuldades que esta encontra em prosseguir um caminho livre, numa sociedade como a alemã, sociedade da abundância e do consumo, onde muitos problemas básicos se encontram por resolver. Aqui um casal de jovens que vivem jun­tos, ainda que não estejam casados. Ele é empregado numa agência de imobiliárias, ela desenhadora técnica. Tudo corre bem até que um dia a rapariga se descobre grávida. A criança aparece-lhe como um ser não desejado naquela altura da sua vida e, tomando sozinha a grave resolução, aborta. Num dos últi­mos planos do filme, a jovem revela o seu acto ao companheiro e sobre o futuro do casal mantém-se uma incógnita indecifrável. Ulrich Schamoni levanta assim, de uma assentada, diversos pro­blemas de grande acuidade no interior das sociedades ociden­tais, desde a situação da mulher, à legitimidade do aborto, o tipo de relações entre várias gerações, o clima de “boom” económico que a Alemanha Ocidental reflectia, o tipo de mentalidade urbana dos alemães de classe média, a hipocrisia nas relações entre sexos, etc. “Isto Aconteceu” é efectivamente um retrato cin­zento de uma civilização em crise.
Alexander Kluge era, seguramente, dos jovens cineastas ale­mães revelados em meados de 60, aquele que possuía maior bagagem cultural como suporte para o exercício de uma prática cinematográfica. Advogado por profissão, escritor, documentaris­ta, Kluge é, no dizer de Marcel Martin, “o melhor representante da nova geração alemã”.
“Abschield Von Gestem” (Anita G) abre com uma epígrafe que a define (situa)): “Nenhum abismo nos separa de ontem. Apenas a situação mudou”. Com esta citação inicia Kluge o seu inquérito sobre uma mulher: Anita G. Do seu passado, pouco se sabe. Judia por nascimento, filha de um rico industrial, perseguida e expatriada durante o III Reich, deixa Leipzig em 1957 para entrar na Alemanha Ocidental. Aqui vive de pequenos expedientes, até ser apanhada a roubar um vestido. Com o julgamento, inicia-se o processo Anita G. Os espectadores serão testemunhas chama­das a intervir no último momento. “Todos são culpados de tudo. Se cada um soubesse, a Terra poderia ser um paraíso”. Somos portanto nós, público, que iremos julgar Anita G., através dos episódios fragmentados que irão reconstituir um rosto, desenhar uma figura.
“Tal como em Resnais, também em Kluge o passado adquire um peso condicionante de acções e gestos. Será ele, filtrado pela memória (que se encontra sempre presente sob a forma de foto­grafias, sons, reminiscências várias) que estilhaçará o presente, desfigurando coisas e pessoas, tornando-as alheias e distantes, inacessíveis e obscuras. Perdida numa realidade que não enten­de, nem abarca. Anita G. pretende integrar-se, ajustar-se, tornar­se peça oleada da engrenagem. Um cartaz anuncia: “Eu sei que um dia haverá um milagre”. O milagre, porém, esgueira-se por entre os dedos desajeitados de Anita. Não será o seu o “milagre alemão”.
Retrato de uma mulher, “Anita G.” é, sobretudo, o retrato “ro­bot” de uma sociedade, feito através de alguns dos seus aspec­tos dominantes. Os polos enunciam-se ao longo da obra: um administrador de uma companhia de discos de ensino de línguas; um alto funcionário do Ministério de Negócios Culturais que vive com Anita e a pretende integrar - educar? - pela cultura (Brecht, Verdi...); um professor de Sociologia; um advogado...
Do processo a “Anita G.”, passa-se ao processo a uma socie­dade. Por caminhos que passarão certamente por Brecht.
Um cinema feito de ironia amarga e cruel: um cinema feito e refeito, estilhaçado pela dúvida, pela imagem passada, pelo ter­ror cristalizado na pele. Anita G., geograficamente perdido no interior de uma grande metrópole, vagueando por ruas e pontes, perse­guida e encurralada. Um tom de crónica. E também das vinte e quatro verdades por segundo de que falou Godard. Aqui e ali uma herança que se não nega: o expressionismo. Kluge utiliza todos as processos, estiola toda a gramática, pulveriza as regras e constrói, uma admirável obra-prima da cinematografia moderna; Tudo isto ao som das valsas e tangos: um lirismo repassado de amargura, um olhar que nos fixa interrogador: “Todos são culpa­dos de tudo”. Nós somos o processo “Anita G.”
Entramos agora num dos casos mais polémicos do cinema contemporâneo. Chegou a altura de falar de Jean-Marie Straub, francês de nascimento que emigrou para a Alemanha, fugindo a uma possível mobilização com des­tino à Argélia. Straub estreia-se no cinema com “Machorka-Muff”, adaptação de uma novela de Heínrich Boll. Esta curta-metragem, datada de 1963, é uma sátira à sobrevivência nazi na Alemanha de hoje, analisada nos seus múltiplos aspectos, desde o rearma­mento à militarização, passando pelo “regresso triunfal de anti­gos oficiais nazis a postos-chave da Alemanha de Bona (ministé­rios e ‘Bundeswehr’ em particular)” (Courtade). “Machorka –Muff” é, efectivamente, uma obra agreste e contundente, o que vai em parte buscar à novela de BoIl, a que a narrativa sincopado e aparentemente caótica de Straub, oferece meia dúzia de aponta­mentos curiosos. Foi ainda em Heinrich Boll que Straub foi encon­trar inspiração para sua primeira longa-metragem: “Nicht Versohnt” (1969). O próprio Straub define as suas obras: “Machorka Muff” é a história de uma violação (a violação de um país, ao qual re­impuseram um exército); “Nicht Versohnt” é a história de uma frus­tração (frustração... de um povo que não se libertou do fascis­mo)”.
Em “Nicht Versohnt” passam três gerações de arquitectos ale­mães, da família Fahmel, que, através de vários episódios que se interpenetram no tempo e no espaço (tão depressa nos encontra­mos em 1934, em 1914 ou em 1954, como nas margens do Reno ou nas salas do hotel “Prinz Henrich”), nos mostram a sobrevivência de uma mentalidade nazi e das consequências de um passado ainda próximo num presente de horizontes ameaçadores. De qualquer forma, também aqui Straub, procurando furtar-se a toda e qualquer possível assimilação dita “comercial”, acaba por exe­cutar uma obra extremamente hermética, de difícil leitura e de penetração cultural e social bastante discutível. O filme viria a ser pateado e incompreendido por quase todo o público, aquando da sua estreia, bem assim como saudado por alguns sectores da crítica alemã (e internacional, sobretudo francesa), que nela viram (de alguma forma justificadamente) um sinal de saudável ruptura com um passado mercantil e demissionário do cinema germânico.

DECLARAÇÃO DE MANHEIM

Estas foram, portanto, as quatro obras que decisivamente definiram e delimitaram o nascimento do “novo cinema alemão” e assinalaram um profundo volte face na indústria do país. A partir de 1966, todos os anos surgiram várias obras que sustentarem e desenvolveram as premissas apontadas por Schamoni, Schlon­dorff, Straub ou Kluge. Não com as características de um “movi­mento” coerente, estética ou politicamente, mas como uma adaptação local do fenómeno de “nouvelle vague” francesa, isto é, como um grupo heterogéneo de jovens cineastas que, subitamen­te, e em bloco, conseguem ascender a uma situação que lhes permite realizar o seu primeiro filme de fundo e, daí em diante, prosseguir ou abandonar uma carreira de cineasta, com um mínimo de liberdade garantida e condições de sobrevivência asseguradas.
A caminhada não foi, todavia, isenta de percalços. Em Janeiro de 1968, por exemplo, entra em vigor, na República Fede­ral, uma nova “lei de auxílio ao cinema” que revolta grande número de cineastas. O princípio, defendido na nova legislação (princípio esse defendido há vários anos pelos deputados cristão-democratas Berthold Martin e Hans Toussaint) é o seguinte, segundo Courtade: “10 cêntimos de aumento em cada bilhete de cinema alimentariam um fundo, do qual 1/3 era destinado à modernização das salas. O auxílio ao produtor (250000 marcos) dominuia grandemente e colocava os realizadores numa mani­festa posição de dependência”. Ou seja: para poder contar com o auxilio de 250000 marcos, o produtor teria de indicar um “filme referência”, produzido por si, anteriormente, e que, em dois anos de exploração no mercado alemão, tivesse de receitas pelo menos 500000 marcos. Os jovens cineastas rebelaram-se - não tanto por se terem sentido atingidos pela medida (a grande maio­ria dos seus filmes realizaram receitas muito superiores às exigi­das), mas pelo que consideravam ser uma declaração nítida de dependência. As medidas foram tidas como “reaccionárias, tanto de um ponto de vista cultural, como económico” e, mesmo num plano político, uma cláusula da nova lei iria levantar enorme dis­cussão: “o auxilio só seria concedido aos filmes que não fossem contra o espírito da Constituição e das leis, ou susceptíveis de colidir com as convicções morais e religiosas do cidadão”. E, pois, neste sentido que se terá de compreender a publicação de uma “Declaração”, aparecida aquando do festival de Manheim (em Setembro de 1967, dois meses antes da publicação da lei), e assinada, entre outros, por Josef Von Sternberg (como presi­dente do Júri), Alexander Kluge, Edgar Reitz, Hans Rolf Strobel, Heinz Tichawsky, etc. Na “Declaração de Manheim”, podia ler-se:
“O futuro de uma economia só pode ser julgada em função da promoção dos jovens. Nenhuma economia deve ser um clube fechado tendo as pessoas já o seu lugar sentado. O projecto da lei de auxilio supõe, de uma forma unilateral, grandes casas de distribuição e de produção. Não faz nenhum caso da cultura pelo filme, nem da nova geração com os seus pequenos orçamentas”.
Aplicada a legislação, logo se confirmaram muitos dos temo­res dos signatários deste declaração. Ao legislador interessara uma indústria, não um fenómeno cultural. Dois anos depois, a revista “Film” afirmava: “A lei fixava, como finalidade, elevar a qualidade do cinema alemão em vastos campos. A lei faltou ao seu dever principal. Entre os primeiros vinte e cinco títulos financiados, é ver­dade que se encontram “Cavaleiro Bravo, S.A.R.L.”, “Refeições” e “Tatuagem”, mas a maior parte dos filmes, compõe-se de “Comis­sário X”... e semelhantes películas abertamente comerciais.
Mas esta legislação foi abolida, em resultado de várias “démarches” políticas e sindicais que os cineastas alemães empreen­deram com êxito.
As dificuldades continuaram, é certo, mas os cineastas da geração que surge no cinema em meados de 60 - muitos deles devidamente reconhecidos internacionalmente, como autores de uma importância incontroversa e mesmo com algum êxito comercial - romperam definitivamente com o marasmo da produção alemã ocidental que se colocou, por essa altura, entre as mais interessantes e sur­preendentes de todo o mundo.


2. WERNER HERZOG
A obra de Werner Herzog é incontestavelmente uma das mais pessoais e originais do cinema contemporâneo. Se o que define um autor e a sinceridade do seu trabalho é a imperiosa necessidade de dizer algo, de transmitir obsessões e fantasmas, preocupações e desejos, então Werner Herzog é definitivamente um dos mais rigorosos e criteriosos cineastas da história do cine­ma. A sua trajectória é das mais apaixonantes (e apaixonadas), desde os seus tempos de simples cinéfilo até ao seu mais recente trabalho. Nem concessões de qualquer espécie, produzindo, escrevendo e realizando a totalidade dos seus filmes, com equi­pas que se vão mantendo de título para título, numa constante de solidariedade e cumplicidade, Werner Herzog é um realizador alemão, testemunho de toda uma tradição cultural que não des­mente e que reafirma a cada nova resposta.
Werner Herzog nasceu a 5 de Setembro de 1942, numa pequena aldeia da Alta Baviera. Os tempos eram de guerra, a aldeia encontrava-se quase abandonada. Herzog já não tinha pai, a mãe educa-o de uma forma liberal, como ele própria relembra. Frequenta o liceu, depois estuda Literatura, História e Teatro, primeiramente em Munique, depois em Pitsburg, nos EUA. A partir de 1962 vamos já encontrá-lo envolvido pelo cinema, rodando as primeiras curtas-metragens, enquanto inicia a sua errância pelo mundo. As viagens serão, aliás, ele mesmo o afir­ma, a sua obsessão primeira, numa tentativa desesperada de encontrar um lugar utópico, deambulando pelo desconhecido, à procura de sensações limites que o conduzam ao conhecimento da verdade e de si próprio. “O Que Eu Sou, São Os Meus Filmes. Não há segredos pessoais que um filme não descubra completamente. Ao ver um filme de um autor, este é sempre surpreendido de calças na mão”, diz Herzog, que completa a ideia: “Nos últi­mos quinze anos, fazer filmes é para mim a única forma de esta­belecer uma relação com as pessoas”.
Aos 18 anos viaja até ao Sudão, seguindo-se depois estadias em Inglaterra, nos EUA (onde trabalha para uma cadeia de tele­visão, depois para a NASA, documentando estudos de novos sis­temas de propulsão para foguetões), depois ainda a África, o México, as Canárias, o Peru, toda a Europa. Quando Lotte Eisner, a grande ensaísta e estudiosa do cinema expressionista alemão, se encontra gravemente doente em França, Herzog sai de Muni­que a pé e dirige-se a Paris, no cumprimento de uma promessa. Quando, no Verão de 1976, os jornais falam de um vulcão em França, “La Soufriére”, que ameaça explodir e soterrar algumas aldeias que entretanto haviam sido evacuadas, Herzog e uma pequena e destemida equipa de filmagem, dirige-se para aí. O seu propósito confessado é testemunhar e arquivar os últimos dias dessa aldeia fantasma, que dois ou três habitantes teimam em não abandonar, mas bem no intimo, é o desafio que o tenta. A proximidade do perigo, sentindo rondar a morte, aproximar-se de uma situação limite que roça o paroxísmo. Essa terá sido sem­pre a sua intenção ao eleger casos extremos para sobre eles cen­trar a atenção da sua câmara. A guerra e a loucura de “Sinais de Vida”; o paraíso terrestre, a Idade do Ouro da Terra, em “Fato Morgana”; um universo apenas povoado por anões, em “Também os Anões Começam por Baixo”; a total incomunicabilidade, em “Terra da Silêncio e da Escuridão”; a demagogia e o poder, em “Aguirre, o Aventureiro”; o caso de um menino-selvagem, em “O Enigma de Kasper Hauser”; a possível erupção de um vulcão em “La Soufriére”; o segredo ae vidro-rubi em “Coração de Vidro”; a patético emigração de Bruno S. em “A Canção de Bruno S.”, a que se deverá juntar “Fitzcarraldo”, um filme que roda durante dois anos na selva da Amazónia, nas piores condições que se possa imaginar, correndo os maiores riscos, desafiando a natureza e o perigo a cada novo plano.
Para Herzog o cinema só pode ser efabulação, ficção, cria­ção interior, projecção de si próprio. Para ele, “o cinema verdade não revela a verdade, mas a sua aparência. Uma mentira cine­matográfica pode revelar muito melhor a essência de um momen­to, de uma situação, de uma forma de loucura individual. Eu invento ficções que servem a realidade a um nível mais profundo do que o cinema-verdade, que só apanha a forma mais primitiva e mais periférica da verdade”.
Estudos humanos em ambientes fechados; uma evidente pro­pensão para casos-limites, rondando o comportamento já pato­lógico; o recurso a grupos humanos limitados, minorias normal­mente marginalizadas por deficiências diversas; uma constante influência da paisagem e dos cenários naturais sobre o compor­tamento das personagens; um gosto quase mórbido, mas nunca gratuito, pela crueldade, pelo grotesco, pela violência, pela anormalidade; uma forma subterrânea, metafórica, de falar de si e do universo que o rodeio; o drama da incomunicabilidade e a luta titânica pela sua superação, eis alguns dos temas básicos deste fascinante autor, herdeiro directo de algumas das mais lídimas características do expressionismo alemão dos anos 20.

SINAIS DE VIDA

Creta, já nos últimos tempos da II Guerra Mundial. O sol­dado Stroszek é ferido numa emboscada e internado durante alguns dias num hospital, no qual conhece uma grega, Nora, com quem acaba por casar. Já em período de convalescença é enviado para uma ilha, Kos, no Dodecaneso, ilha aparentemente afastada dos conflitos bélicos. Acompanhado pela mulher e ainda por dois camaradas, Meinhard e Decker, igualmente saí­dos no hospital, Stroszek é incumbido de guardar um depósito de munições abandonado que se encontra num velho castelo vene­ziano, junto ao porto de Kos.
Isolados no castelo, os seus quatro habitantes procuram tor­nar a existência o mais cómoda possível, desfrutando uma inac­tividade quase total, intercortada por pequenos afazeres que mais parecem passatempos: pintar portas, depenar galinhas, construção de imaginosas gerigonças paro capturar baratas, decifração de velhas inscrições latinas, etc. Um pequeno paraíso, uma ilha de paz, onde nunca se combateu, conforme somos informados pelo comentador do filme.
A calma é, porém, ilusória; a inactividade paralisadora. Pas­sam-se duas semanas sem que nada aconteça. A monotonia é quebrada pela aparição de um cigano, com quem é impossível comunicar. Também com as crianças do porto é difícil estabelecer diálogo, nas raras descidas dos quatro ocupantes do castelo à vila.
Entretanto, Meinhard interessa-se vivamente pela fabricação de foguetes, numa aparente luta contra a apatia circundante. É também ele quem mais vezes desce até à vila ou até à costa, à procura de peixe, num mar onde a pesca é quase nula.
O isolamento vai trazendo as suas consequências: Stroszek anda cada vez mais perturbado. Desce mais uma vez à vila, onde encontra um inquietante pianista, cuja música não o acalma. O seu superior hierárquico, apercebendo-se do evoluir dos aconte­cimentos, envia-o numa missão de reconhecimento, cuja finali­dade é unicamente distraí-lo. Durante a missão encontra uma casa, onde pára para beber e onde ouve uma criança tentar can­tar uma ária que o pai lhe pede para entoar. Mas também a criança não consegue articular os sons certos. O caso de Stros­zek agrava-se, sendo já incontroversos os sintomas de loucura.
Finalmente, expulsa os companheiros do castelo e tenta des­truir a povoação com os foguetes que ele próprio havia fabrica­do. Na primeira vaga de ataques consegue apenas matar um burro, além de espalhar o pânico entre a população e alertar a reduzida guarnição militar do porto que, a principio, julga tratar-se de um ataque de patriotas gregos. Mas o ataque de foguetes que parte do castelo em posse de Stroszek, prossegue, agora com resultados ainda mais insignificantes: uma cadeira queima­da.
Stroszek resiste durante dois dias, entricheira­do na sua posição, mantendo à distância os elementos que o rodeiam com a ameaça de fazer explodir o depósito de munições, caso alguém se aproximasse do castelo. Mas o cansaço vence-o, acabando dominado pelos seus camaradas, e de novo enviado para o hos­pital.
A solidão - uma das constantes do cinema de Herzog. Numa terra que não é a sua, Stroszek e os companheiros desco­brem a total incapacidade para a comunicação. A língua que se desconhece, a aridez inóspita da paisagem grega, a mulher com quem se casa e com quem se não pode falar, a disponibilidade de um tempo inútil, tudo isto conduzido a um acto aparentemente de loucura mas na realidade de esquizofrénico suicídio e, sobre­tudo de revolta: o bombardear da aldeia com os foguetes.
Longos planos com a câmara fixa - uma forma inquietante de abordar a solidão. A negro e branco, os traços inóspito da presença do homem num universo estranho. Um filme desequili­brado, seguramente, mas interessante, revelador de uma perso­nalidade sumamente curiosa.

FATA MORGANA

“Fato Morgana” não é uma película de estrutura tradicional, na medida em que recusa qualquer tipo de ficção e se entrega intei­ramente à elaboração cerrada de imagens e cores, de sons e rit­mos que mais se associam à criação do “poema”, do que à ela­boração do “romance”. “Um filme sobre a criação do mundo, o paraíso e a idade do ouro”, assim o define rapidamente Herzog. Um comentário, dito por Lotte Eisner (a maior autoridade sobre a cinema expressionista alemão), que começa: “Aqui se conta como o mundo jazia num silêncio completo, e flutuando numa calma profunda, balouçava, ermo e solitário. E esta é a primeira informação, o primeiro testemunho: não havia homens nem ani­mais, aves, peixes ou répteis; nem árvores, pedras, cavernas ou abismos, ervas ou arbustos, unicamente o céu”.
E o texto continua: “Por baixo da abóbada celeste, invisível era a face da Terra; só a mar se comprimia sossegado e era tudo. E não havia nenhum objecto que se tivesse podido formar, ou se notasse, movesse, corresse ou soasse no céu, pois era nada absoluto. Só a água, um mar imenso e tranquilo; não havia nada que não tivesse existido. Tudo era silêncio e calma na escu­ridão da noite”. Diz Herzog que as imagens de “Fata Morgana” acompanham a narração dos mitos da criação do mundo dos índios guatemaltecos do século XVI e se apoiam em comentários dispersos dos vanguardistas alemães de 1970.
Quais as imagens de “Fata Margana”? O filme encontra-se dividido em três partes: “A Criação”, “O Paraíso” e “A Idade do Ouro”. Inicia-se a descrição do primeiro tempo, “A Criação”: O filme começa com uma lenta chegada. Um avião que aterra na poeira do deserto. Aterragem que se repete oito vezes, enquanto a voz da narradora inicia a descrição dos primeiros momentos da criação, numa linguagem que nos relembra outros mitos, nomea­damente o da “Criação” cristã. Palmeiras cinzentas, despojos no meio do deserto, fuselagem de um avião, carcaças de animais, ressequidas, insistentemente focadas. Depois o deserto, os con­tornos das dunas, o céu, a areia de um cinzento pardo, a cor da noite, o sol, a imensidão das distâncias sem fim. A proximidade de um grupo de barracas. Crianças negras subnutridas, velhos, tudo cercado, abafado pelo presença constante do deserto. A narradora fala-nos do Criador e da Criação. A estrada serpenteia por entre dunas. Os subúrbios da cidade, as barrocas. Uma criança segura uma raposa no deserto, branca, diante da câma­ra. A música, de coro liturgico, transforma-se num “beat” ritma­do. A narração continua “Deus fez uma nova tentativa de Cria­ção”.
Segundo tempo: “O Paraíso”. Do interior de uma caverna, sai um árabe. Do rádio transistorizado, música de tango. “No Paraíso o prazer é obrigatório”. Como banda musical canções de Leonard Cohen “I love you in the Morning... Mary loved before us…” Um lagarto, preso nas mãos de um cientista alemão, que se lamenta: “Disponho apenas de 14 anos para saber como este lagarto pode sobreviver sob o sol ardente do deserto e encontrar sustento”. Um sol que sobe até aos 50 graus. No comentário: “No Paraíso as pessoas nascem já mortas”.
Um grupo humano: uma mulher branca ensina meia-dúzia de crianças negras a repetir: “A guerra relâmpago é uma loucura”. Longas panorâmicas sobre excrementos de uma indústria petro­lífero que suja a paisagem. Campos de concentração de mate­rial.
Na margem de um lago, um homem-rã explica que “a tarta­ruga tem barbatanas para se movimentar, uma boca para se ali­mentar e um ânus por onde tudo volta a sair”. Depois de obser­var atentamente o animal, o mergulhador volta a atirá-lo à água e lança-se ele própria de novo em sua perseguição. Prometeu, o mito. A narradora: “Enquanto tu dormes, Deus passeia doce­mente pela Terra com Maria.”
Finalmente, o terceiro tempo: “A Idade do Ouro”. Numa tarde de feira, uma pianista e um baterista tocam automatica­mente melodias espanholas, recomeçadas incessantemente. “Na Idade do Ouro, homem e mulher vivem harmoniosamente entre si”. Grinaldas de flores mortiças e um ambiente de festa moribun­da. Junto ao mar, palmeiras. Num deserto de terra negra, como um cenário de Beckett, grupos humanos tentando sair de covas onde se instalam. A “trágica visão” não tem fim. Homens que riem, outros que gesticulam. De novo o homem-rã: “A tartaruga tem uma cabeça para pensar
A viagem de “Fata Morgana” (miragem longínqua de um pas­sado, pesadelo que relembra a presença angustiante do homem sobre a Terra) termina com vários planas de crosta da Terra, res­sequida, gretada, rasgada.
Estruturando-se entre o pesadelo e o sonho, “Fata Morgana” é uma sucessão de imagens guiadas por uma narração que as imagens por vezes ilustram, quase sempre comentam, ora drama­ticamente (por oposição à descrição utópico das palavras) ou sar­casticamente (por desvio do seu significado). De novo a insistên­cia quase provocadora na utilização de planos de longa duração, ou repetidos inúmeras vezes. De novo a impotência do homem perante a paisagem agreste que é, simultaneamente, desafio e derrota. E novo desafio e derrota. E novo desafio. Uma nova constante que iremos encontrar, acentuando-se, em filmes posteriores: a presença do animal. Em “Sinais de Vida” são as baratas, as galinhas depenadas, é um burro morto durante um tiroteio de foguetes. Em “Fata Morgada”, filme rodado no Sul do Sahara, surgem as raposas do deserto, os camelos, a tartaruga, todos eles assegurando um importante papel no peso simbólico e metafórico do significada final dos obras. A perversidade, o horror, a crueldade, na boa tradição dos surrealistas, de um Buñuel, por exemplo. Cuja influência Herzog não renega...

TAMBÉM OS ANÕES COMEÇAM POR BAIXO

Rodado em Lanzarote, uma ilha das Canárias, numa região visivelmente vulcânica, “Também os Anões Começaram por Baixo”, é seguramente um dos mais inquietantes e polémicas filmes de Herzog.
Trata-se de uma parábola (toda o cinema de Herzog parece, aliás, inserir-se num processo simbólico, com muitas característi­cas comuns a todas as suas obras), interpretada unicamente por 27 anões, num cenário “normal” (isto é: monstruosamente des­proporcionado para os seus habitantes). A “história” é relativa­mente fácil de resumir, mas impossível de descrever: num asilo (casa de correcção?), durante a ausência do director, grande parte dos internadas revolta-se contra o encarregado que os vigia, encarregado esse que como eles é anão. Este consegue entricheirar-se no escritório, juntamente com um refém, e procura dissuadir os revoltosos dos seus intentos. Entretanto, cá fora, as reclusos dão livre curso à sua revolta, apedrejando o escritório do vigilante, queimando uma palmeira do director, destruindo auto­móveis e motos, partindo louça, atirando comida uns aos outras, rasgando, desordenando, destruindo...
O vigilante avisa-os de que, se não cederem, ele acabará por liquidar o refém. O que acaba por fazer, pondo fim a essa revolta selvática. Num último plano da filme, um anão ri demoradamente, enquanto à sua frente, um camelo, com as patas dian­teiras dobradas pelas joelhos, faz repetidos e improfícuos, esfor­ços para se erguer.
Como obra original e polémica, “Também as Anões Começa­ram por Baixo” é indubitavelmente apaixonante. De uma cruelda­de quase insustentável. De uma violência que não nos lembra ver muitas vezes em imagens. Nesta parábola tremenda são novamente os animais as mais visados. As galinhas: uma delas debicando um rato morta; outra, manca, a ser perseguida e quase devorada viva; o camelo, que atrás se refere; o macaco que ocupa o lugar de Crista numa procissão; finalmente, uma das mais violentas cenas da história do cinema: uma porca que dois anões cegos matam à paulada e depois cavalgam, enquanto as crias, ignorando a morte da mãe, permanecem agarradas às suas tetas, chupando-lhe o leite. Tudo isto, inscre­vendo-se num universo “monstruoso”, de cenários ermos e inós­pitas paisagens. Num filme onde se mantém a dificuldade de expressão e de movimentas dos anões. Numa obra onde a violência das acções humanas é constante.
Mas, se “Também os Anões Começaram por Baixo” nos parece apaixonante como proposta, já muito discutível poderá ser a sua interpretação. Senão, vejamos: se aquele asilo abando­nado pelo director (Deus? Existe na obra um ou outro elemento que nos pode induzir numa interpretação deste tipo: por exemplo a cama do director, onde dois anões irão tentar ter relações, é obviamente pertença de um ser que os ultrapassa em estatura) prefigurar o mundo, e a revolta contra uma ordem estabelecida (qualquer ordem estabelecida, visto que o filme não nos oferece qualquer tipo de referência em relação à “ordem” contestada), obvia­mente se poderá concluir pela selvática inutilidade desta revolta anárquico, no que o filme se aproximará perigosamente das propostas de uma ideologia de tonalidade germânica, legitimando processos de manutenção de ordem contra a barbárie. Com o agravante de que, sem tornar plasticamente sedutora a violência e a crueldade, existe contudo em “Também os Anões Começaram por Baixo” algo de fascinante, nesse jogo de fim de mundo, onde o caos sucede à ordem.
Outro aspecto curioso de referir: aquando da revolta dentro do asilo, os anões distorcem a utilidade prática dos objectos e das máquinas postas ao seu serviço: um carro é colocado em cir­culos, toureado por uns, apedrejado por outros; a louça, que fun­ciona coma arma de arremesso; a comida, que se despreza como um brinquedo, etc., tudo isto conduzindo a uma situação limite, caó­tica e insustentável, tornando “necessária” qualquer forma de reacção disciplinadora. Estaria nas intenções de Herzog esta lei­tura? Na melhor das hipóteses, porém, o pessimismo é ainda assim a ideia central, definido nas imagens finais, nessa esfor­çada - e inútil - tentativa do camelo que procura erguer-se, sem o conseguir, perante o riso convulsivo de um anão.
Richard Goud, em “The Guardian”, refere um curioso aspecto desta obra: “Todos os filmes são um microcosmos, mas Herzog teve a brilhante ideia de nos dar literalmente um micro­cosmos; toda a vida humana, por muito infeliz e desoladora que seja, se encontra ali, escrita em minúsculas. No seu intelectua­lismo progressivo, na sua coragem, e mesmo na desprezível obscenidade, trata-se de um soco bem dado, no seio de uma certa tradição da arte nórdica. Grotesco, desagradável, repulsivo até: tal como as pinturas de Bosch e Grunwald, ele é testemunho de um ponto de vista da vida humana que nós corremos o perigo de ignorar”.
Falar de Bosch e Grunewald, a propósito de “Também os Anões Começaram por Baixo”, eis um paralelismo interessante, a justificar uma atenção redobrada á obra de Herzog.

A TERRA DO SILÊNCIO E DA ESCURIDÃO

“Quando ainda era criança, e podia ver e ouvir, assisti a sal­tos de esqui, e essa imagem vem-me sempre ao pensamento. Quando esses homens pairavam no ar, eu olhava atentamente as suas faces. Gostaria que você também as pudesse ver”. Com estas palavras de Fini Straubinger inicia-se “Terra do Silêncio e da Escuridão”. Desta feita a sua atenção para o mundo dos cegos e dos surdas.
O filme acompanha Fini Straubinger, uma mulher de 56 anos, que aos 16 perdeu a vista e dois anos mais tarde ficou completamente surda. Primeiramente é a sua existência quotidiana e a de várias outras pessoas em situação idêntica que a obra testemunha. Depois traça-se rapidamente a evolução da sua doença, a queda na escada, os sintomas sem­pre crescente da perda das suas faculdades, um longo período de desânimo e inação que, mais tarde, vem a ser superado. Fini Straubinger consegue triunfar das condições adversas em que vivia, ultrapassando a dificuldade de comunicação, o isolamento, a descrença. Vive agora na Baviera, trabalha como visitadora de outros seus semelhantes, lutando para que cada um possa ver melhorada a sua situação.
Através das deambulações de Fini Straubinger, vamos encontrando vários casos de pessoas desfavoravelmente integra­das na sociedade: Elsie Faher, surda e cega, a quem colocaram numa clínica psiquiátrica, embora como é óbvio o seu lugar não devesse ser ali; o jovem Harald, surdo e cego de nascença, inter­nado num hospital especializado, que beneficia do emprego de todas as modernas técnicas no sentido de impedir a progressivo isolamento; isolamento esse bem documentado no caso seguinte, de Wladimir, de 22 anos, incapaz de comunicação com qualquer outra pessoa, vitima da ignorância familiar, das atitudes de “tabu” e de “vergonha” geralmente sentidas em relação aos diminuídos. Finalmente, Heirich Fleischmann, o homem abando­nada pelas outras homens e inteiramente dedicada às plantas e aos animais.
Sobre a cegueira e a surdez poderia realizar-se um filme que fosse um “documentário”; ou uma “história”, mais ou menos “exemplar” que cedo cairia no melodrama; poderia olhar-se essa outra minoria humana com desinteresse ou especular com a emoção fácil da público. Poderia escolher-se a adesão primária, instantânea. Herzog optou pela simplicidade de um olhar atento que, sendo documental, ultrapassa a neutralidade impossível do “documento”.
De novo na filmografia de Herzog o estudo de um estado de incomunícação, isolamento, solidão. O pessimismo frente à con­dição humana? Eis a revelação da “Terra do Silêncio e da Escu­ridão”. Sendo, aparentemente, o filme que mais facilmente poderia cair num pessimismo radical, é, de entre todos os assinados por Herzog, aquele que maiores perspectivas abre para o exterior. Porque não se trata de um filme fechado sabre o circulo da incomunicabilidade, mas é, fundamentalmente, um filme dedicado àqueles que conseguem ultrapassar esses limites, na pessoa de Fini Straubinger, no seu exemplo, na sua vontade.
“Sempre me sobressalto quando me tocam” revela Fini. E mais adiante: “A sua mão afasta-se da minha e é como se esti­vessemos mil quilómetros distantes um do outro”. De olhos e ouvidos fechados para a mundo “se agora rebentasse a guerra, eu não o notaria”, cegos e surdos reinventam o poder de dar as mãos. Por isso Herzog chamou ao seu belo filme “uma monogra­fia sobre as mãos de uma cega-surda”, esse cordão que dela se estende para os outros, em fraternal solidariedade.
Continuando a explorar uma escrita de grande concisão (planos longos, movimentas raros e lentos, um ritmo de monta­gem necessariamente pousado, usufruindo de uma respiração suspensa sobre a olhar essencial), “Terra de Silêncio e da Escuri­dão”, é uma contribuição notável para o conhecimento dessas minorias marginalizadas por “tabus” absurdos. conhecimento que se impõe pelo respeito à pessoa humana, nunca como suporte de piedosas intenções. O mesmo espírito que se sentirá ter presidido à rodagem da obra.

AGUIRRE, O AVENTUREIRO

“Eu não fiz um filme latino-americano. Tenho uma grande simpatia pelos índios, mas não arvoro o estandarte da sua causa. Eles continuam a ser um mistério para mim e eu respeita a sua dignidade, deixando o seu mistério por resolver!” - Herzog.
Decorrendo em redor do ano de 1560, “Aguirre” poderá prin­cipiar por ser tomado apressadamente, como um filme sobre colonialismo, sobre os contactos entre duas civilizações, aqui a colonização espanhola que invade o selva em busca de conquista, de pode­ria, de riquezas, e os índios incas, resguardando a sua maneira de ser e de viver, os seus tesouros, a sua sobrevivência pessoal. Acontece que essa não era o intenção de Herzog. “Aguirre” não é um filme sobre o colonialismo, mas um filme sobre o poder, melhor dizendo o conquista do poder, onde o colonialismo nunca ultrapassa a situação de “pano de fundo”. Não é ainda um filme sobre o colonialismo porque, como o próprio Herzog se confessa em relação ao problema índio, fica distante do seu mistério: “Tenho uma grande simpatia pelos índios, mas não arvoro o estandarte da sua causa”. O que é evidente ao longo ao todo o filme. O centro nevrálgico deste é o acampamento flutuante das tropas espanholas e tudo o que se passa no seu seio. Os índios não ultrapassam a fronteira da “ameaça”. Funcionam unicamente como o “desconhecido” que vai condicionando uma marcha, acompanhando-a à distância, espiando o movimento dos prota­gonistas por detrás da insondável verdura que emoldura um rio. No dia 26 de Setembro de 1560, parte do litoral uma expedição que, comandado pelo nobre espanhol D. Pedro de Ursua, demandava o “Eldorado”. Para tanto, havia que subir rio acima, com o fito nos Andes e nos tesouros que a tradição dizia escon­derem-se para lá das montanhas. Assim se penetra pelo rio Marañon, se sobe depois o Ucayali, finalmente se chega ao Amazonas. Em jangadas que, uma agora, outra depois, se vão perdendo. De dificuldade, em dificuldade, de impossibilidade em impossibilidade.
A expedição parte, comandada por Ursua, mas, a certa altura do percurso, este, doente e antevendo dificuldades intrans­poníveis, ordena o regresso. A partir daqui sobressai uma perso­nagem até ai secundário, Lope de Aguirre, que subleva os com­panheiros e impõe à caravana o rumo da cobiça, da fama, da loucura. Aguirre passará a comandar de facto a expedição, ainda que para o conseguir tivesse que mimar um julgamento sumário do “traidor” Ursua e, para seu lugar, tenho feito eleger a manobrável e indolente D. Fernando de Guzman, imperador fantoche.
Perseguindo o sonho quimérico das honrarias e fortunas de que falara Pizarro, Aguirre desafia a História e inicia o seu rei­nado de terror. Fugindo um pouco à verdade factual histórica, Herzog descreve-nos um tirano que oscila entre o crueldade e a insânia, entre o legalismo forjado e a prepotência criminosa. Um a um, os seus companheiros de aventura (e de cativeiro) vão desa­parecendo, até que finalmente, perdido no meio de uma jangada habitada unicamente por centenas de macacos, Aguirre se encontra só, esbracejando contra o destino e o sorte.
Fundamentalmente, “Aguirre, o Aventureiro”, procura ser um estudo sobre o demagogia política que levo ao poder um louco.
Demagogia política ou maquiavelismo?
Filme sobre os insidiosos mecanismos do poder, com os seus paralelismos óbvios com alguns aspectos de uma realidade alemã muito distante, “Aguirre, o Aventureiro”, rompendo de alguma forma como o hermetismo que caracterizava as primeiros obras de Herzog, mantém-se, apesar disso, um prolongamento rigorosamente coerente da filmografia do cineasta.

O ENIGMA DE KASPER HAUSER

Prolongando o seu interesse por casos limites de anormalida­de, Herzog apaixona-se pela história de Kasper Houser, um jovem que, certa manhã do ano de 1828 (sabe-se a data precisa, o domingo de Pentecostes, dia 26 de Maio), “nasce”, imóvel e espantado, no centro da praça principal da cidade de Nurem­berg, agarrando na mão uma carta, dirigida ao “nobre Capitão de Cavalaria”. Kasper Hauser nada sabia até essa altura do mundo que o rodeava, sequer de si próprio. Enclausurado longos anos, vegetando unicamente como um animal, Kasper desconhe­cia a fala, a escrita, movendo-se com a dificuldade de quem per­maneceu desde sempre agrilhoado no funda de uma cave. No sua autobiografia (escrita temo depois), Kasper confessa que apenas lhe restava “a companhia de dois cavalos de madeira e um cão”, com quem “brincava sempre”.
Desta figura misterioso, desta vida enigmático que surge à luz do dia com dezassete anos completos, retiraram historiadores e ensaístas, escritores e artistas várias obras que nunca esgota­ram o tema, sequer para ele encontraram decifração lógica. As hipóteses que se colocam valem somente como hipóteses possí­veis, nada mais, já que nenhuma argumentação encontrou até agora as factos “irrefutáveis” para sobre eles se alicerçarem. Seria Kasper uma criança roubada, um filho de Napoleão, um louco, um indivíduo fugido de um circo equestre, um príncipe deserda­do, o fruto proibido de qualquer amor impossível? A dúvida sub­síste envolvendo o mistério.
Recolhido pelo município de Nuremberg, de novo aprisio­nado na torre do castelo, cedido depois para uma barraca de fei­ra, onde era exibido como “um dos quatro enigmas dos quatro cantos do mundo” (os outros três enigmas prendem-se com outras obsessões do cinema de Herzog: o rei anão, que vem directamente de “Os Anões Também Começaram por Baixo”; o índio “Hombrecito”, de “Aguirre”, e o jovem Mozart, antigo projecto ainda não concretizado), Kasper viria a ser recolhida pelo profes­sor Daumer que inicia a seu processo de educação, ensinando-a a falar, a ler, o escrever, a tocar piano, integrando-o enfim num mundo onde pré-existe uma cultura e uma civilização desconhecidas de Kasper. À medida que este vai exercitando a inteligên­cia, que vai descobrindo o mundo, por vezes nos seus mais ínfi­mos e imperceptíveis pormenores, algo se vai perdendo, a que, facilitando a palavra, se poderá chamar “inocência”. Perca que é tanto mais de sublinhar quanto em sua substituição se vai aden­sando um panorama onde sobressaem a hipocrisia, a rígida lógico escolástica, o pedantismo, a violência traiçoeira das punhaladas assassinas pelas costas. É desta altura a frase de Kasper que con­fessa ter sido a “sua aparição no mundo uma queda brutal”.
Deverá ter sido esta “queda brutal” de Kasper no vazio do mundo civilizado o que apaixonou Werner Herzog, um pouco na linha de um Truffaut, de “O Menino Selvagem”, ainda que entre ambos o filmes as diferenças sejam acentuadas. Enquanto o “Menino”, de Truffout, era uma criança que assumira a condição de “menino-lobo” (todo o seu contacta com a natureza lhe fornecera uma “educação” nesse sentido), em “Kasper”, de Herzog, o jovem de dezassete anos permanece incólume, puro em quase todos os contactos com o exterior. Era o seu um mundo vertiginosamente reduzido ao buraco negro de uma cave insalobra. Kasper asse­melho-se a um ser conservado e abruptamente arredada da mun­do. “Conservado”, poderá ser o termo, como se possível fosse conservar uma criança, adiando-lhe o nascimento. Como se aquela caverna negra prolongasse até ao limite do possível o ventre materna onde cresceu o feto.
Filme de um poeta, a quem a relação entre o indivíduo e o universo obceca. “O Enigma de Kasper Hauser” é necessariamente um filme sobre a linguagem, sobre o complexo contacto entre o homem e os outros, o homem e a natureza. O que leva Kasper a perguntar se “não ouvem em redor de si esses gritos assusta­dores a que comunmente se chama silêncio”, questão angus­tiante sobre que repousa grande parte do essência deste “Enigma” que, para lá das imagens mágicas de Herzog, conserva secreto e silencioso o percurso de um homem por sobre a terra. Discre­tamente povoado de fantasmas, de gritos assustadores que rom­pem o silêncio e ampliam para zonas de obscuro conhecimento a razão última desta ode desesperada que
a solidão encerra.

CORAÇÃO DE GELO

“Coração de Gelo”, de 1976, é uma das experiências mais invulgares de toda a história da cinema, dado que neste filme Werner Herzog dirigiu quase todo o elenco depois de ele próprio o ter hipnotizado. Este facto não é um mero recurso de propa­ganda para “vender” o título (foi dos filmes deste cineasta mais mal recebidos pelo público, mantendo-se pouco tempo no cartaz nas cidades ande foi estreada - veja-se o caso de Lisboa, reti­rado da sala onde estreou, depois de uma curta semana de exi­bição), mas como método escolhida para provocar uma ambiên­cia mágica, chamemos-lhe assim, que a obra logra quase intei­ramente. O estilo de representação tem como consequência um clima muito próprio, vagueando os actores pelos cenários em estado de quase letargia, recitando um diálogo arrastado e sila­bado, movendo-se com a lentidão de zombies, como que filma­dos em “slot motion”. É evidente que Herzog pretendia isso mes­mo, para desta forma criar uma atmosfera diferente, no que tam­bém é auxiliado pela beleza das paisagens onde decorre grande parte desta película que se poderá considerar “iniciática”.
No sul da Alemanha, precisamente nas florestas da Baixa Baviera, num tempo indefinido, que tanto pode ser o século XVIII, como o XIX, o jovem dono de uma fábrica de vidro tenta, por todas os meios, encontrar o segredo perdido da fabricação do “vidro-rubi”, cujo inventor, recentemente falecido, levou consigo para o túmulo. Esta pesquisa, e a sua ineficácia, levam o prota­gonista a uma forma progressiva de loucura que o conduzem ao sacrifício de uma jovem virgem, pensando que o sangue desta, derramado e ofertado à fórmula secreta, conseguiria penetrar no segredo alquímico. Acabará, no entanto, por deitar fogo à fábri­ca.
Na mesma floresta, um pastor vidente, Hias, mantém um longo diálogo consigo próprio e com a natureza, através de um texto de significado cifrado, mas cuja beleza literária será um dos motivos de criação do “maravilhoso” no filme. Hias profetiza a morte de um camponês e o incêndio da fábrica, da mesma forma que fala de uma “nova era que se anuncia “de infelicidade e de loucura”. O pastor será julgado pelos populares como culpado pelas visões que, finalmente, se concretizam, sendo mais tarde libertado para continuar a vaguear pelas montanhas, onde as previsões catastróficas se multiplicam, prevendo tempos de destruição e violência, com “as fábricas condenadas a desaparece em chamas e os castelos a sucumbir em ruínas”.
Há como que um tempo lendário, mítico, desdobrando-se e inundando toda a obra de uma grande beleza “maldita”. Herzog surge obviamente associado à figura deste profeta do fim do mundo, pelo menos deste mundo tal como o conhecemos. É pelas palavras de Hias que sabemos da ameaça do “caos”, onde “ninguém amará ninguém”, onde “não se poderá comprar um pedaço de pão”, onde os homens se matam por qualquer pequeno incidente, onde as “pessoas da cidade partem para os campos pedindo aos camponeses para estes as deixarem traba­lhar nas suas terras e serão aí chacinadas”.
Obra de um visionário amargurado pelo destino do mundo, pelo atmosfera de guerra dia-a-dia crescente, pela desumaniza­ção dos sentimentos, pelo impotência em atingir o “Idade da Ouro” (o segredo do “vidro-rubi” pode equivaler-se aqui a algo de semelhante ao segredo alquímico da obtenção do ouro), “Coração de Gelo” é, todavia, um filme que, por força do seu hermetismo por vezes desnecessário, se torno demasiado complexo e pouco acessível, fascinando aqueles que facilmente se deixam levar nesta “viagem” iniciática, mas afastando definitivamente quem com ela não se identifique desde inicio. No conjunto da obra de Werner Herzog, este será possivelmente o “filme culto” que alguns amam desmedidamente, mas que muitos mais repu­diam, acusando-o de uma mera experiência formal fracassada.

A CANÇÃO DE BRUNO S.

Mantendo fortes pontos de contacto com “O Enigma de Kas­por Hauser” (mantendo inclusive o mesmo actor, Bruno S.), “Stros­zek” é um filme desarmantemente claro na sua escrita, que, toda­via, releva de um estilo, de um tom muito pessoal, quase impos­sível de classificar. Dir-se-ia um hiper-realismo poético, tendendo à parábola. Os cenários são minuciosos, os movimentas claras e reduzidos ao essencial, os enquadramentos sóbrios e demora­dos. A acção progride linearmente. O tom de pequena crónica do quotidiano instala-se Ientamente. Crónica de uma vida margi­nalizada no interior das sociedades ditas de abundância. Bruno Stroszek, músico ambulante, personagem com o seu quê de “anormal” (pelo menos na forma cândida como enfrenta o mundo e nele se expõe), sai mais uma vez da cadeia, depois de uma das amiudadas prisões por que passa em virtude do seu exagerado gosto pela cerveja. À saída encontra Eva, uma jovem prostituta que aloja em sua casa, depois de a ver maltratada par dois chulos. Um velha vizinha acena-lhes então com o sonho, a utopia, a América, a terra das oportunidades. Para lá partem e nela se perdem.
Bruno S., que conhecia as grades das prisões de Berlim e a violência desbragada dos truões alemães, irá descobrir na Amé­rica, nesse novo mundo prometido, uma violência contida, refrea­da, climatizada, íntima, a que não consegue sobreviver.
A mecanização domina o jogo e impõe um andamento pró­prio, que irá triturar quem não o aceita (ou não pode aceitar). Como a galinha que toca piano, ou aquela outra que dança ao som do disco, como o coelho bombeiro (mais uma vez os animais ocupam um destacado lugar no cinema de Herzog), Bruno S. terá que se encaixar na engrenagem e nela se moldar, sob pena de sucumbir. São as prestações para a casa prefabricada, para a televisão a cores e o frigorífico, é Eva que o abandona, tro­cando-a por um camionista, é a vida que lhe passa ao lado e que, na inocência do seu olhar, na limpidez das suas mãos, ele não consegue agarrar, Transformado num “fora-da-lei” sem ter percebido muito bem porquê, Bruno S. abandona à deriva um camião roubado, enquanto parte ele próprio sem destino, no banco suicida de um telesférico que o conduzirá quem sabe ao cimo de que monte. Uma ingenuidade que, contudo, lhe permite ainda perceber a trama envolvente que o agarra, esse sorriso hipócrita de um agente bancário que lhe aponta as grandes van­tagens da sua organização e os perigos de não pagar o que deve, bem assim como todo o ambiente de solicitações várias que obrigam ao consumo impensado e irracional, e transformam o homem em presa de si próprio.
“Uma violência mais discreta, mais intima”, acusa Bruno S. Admiravelmente dirigido pelo sensibilidade delicada e estranha de Herzog, esta “Canção” vive ainda da interpretação de Bruno S., que é já hoje uma figura carismática na cinematografia germâ­nica.
O mistério envolve este actor (?), esta personalidade que se diria saída de um asilo de atrasados mentais, e cuja limpidez da olhar permite todas as suposições e aventuras. Um filme admirá­vel.

NOSFERATU, O FANTASMA DA NOITE

“Nosferatu, o Fantasma do Noite”, tem uma história atrás de si que será interessante revelar. Trata-se da adaptação do célebre romance de Bram Stocker, “Drácula”, mas através de uma outra versão cinematográfica alemã, ainda muda, rodada em 1921, por um dos maiores cineastas de todos os tempos: Friedrich Wilhelm Murnau. Foi a esse “Nosferatu, o Vampiro” que Werner Herzag foi beber a inspiração, o clima, inclusive o recorte físico dos personagens. Não se trata, todavia, de uma “remake” mais ou menos fiel de um clássico, aquilo que Herzog conseguiu com o seu “Fan­tasma da Noite2. Se existem no filme de Herzog nomeadamente muitas planos que referenciam de imediato outros de Murnau, a evidência desse facto não pode ser interpretada de outra forma senão como de uma citação que se inscreve em jeito de home­nagem àquele que Herzog considera “o maior realizador alemão de sempre”.
A história é quase textualmente a mesma, deslocando-a Her­zog, uma vez por outra, para novos campos. Mas no essencial segue a par e passo o itinerário de Jonathan Harker que se dirige à Transilvânia para aí encontrar o Conde Drácula que se quer transferir para a cidade onde Harker vive e onde este se lhe pro­põe alugar um velho castelo em ruínas. Na viagem de regresso, Jonathan trará consigo a doença, enquanto o conde Drácula, ou Nosferatu, o morto-vivo, por entre caixões com terra e milhares de ratos, transportará a peste. Peste que se instala na cidade, lhe percorre as ruas como o sangue viajando pelas veias. Uma cidade sitiada que sucumbe Ientamente, que a Morte povoa de horror, mas que também liberta para os prazeres e a alegria última dos condenados. Nesta cidade em derrocada, Nosferatu é senhor e servo. Detentor do poder que a morte confere, ele é igualmente sua vítima. O medo da eternidade que se lhe revela (“há coisas bem piores que a morte”, confessa), o solidão dos seus dias de furtivo, o desamor das suas horas transparecem na máscara amargurada de Klaus Kinski, o actor que encarna o figura de Drácula. lsabelle Adjani, na sua pureza frágil e delica­da, será Lucy, a mulher que pressente o perigo para lá das apa­rências e se oferece para o deter num duplo sacrifício de amor. Mas a ameaça prosseguirá, sob um novo rosto. A peste irá alas­trar. Os ratos, comandadas pelos profetas da Morte, são legiões que partem à conquista de novas cidades.
Se o filme de Murnau prenunciou, por dentro, o advento do nazismo, que no inicia dos anos 20 pairava já como ameaça a que os poetas eram sensíveis, a obra de Werner Herzog pode bem ser a equivalente relativo aos anos 70. Que futuro será o nosso, quando os poetas do fantástica nos falam de “O Ovo da Serpente” ou de “Nosferatu” e cineastas de um e outro realismo nos apontam o “Apocalipse” para já?

WOYZECK, O SOLDADO ATRAIÇOADO

Retirado de uma peça teatral de Georg Buchner, “Woyzeck, o Soldado Atraiçoado”a é um dos raros argumentos não originais de Herzog, ainda que o tratamento dado ao texto e a aparente iden­tidade de pontos de vista entre a cineasta e o poeta-dramaturgo faça com que o filme resulte uma obra profundamente coerente e enquadrada no espírito e nas preocupações de Herzog, sem trair de qualquer forma as intenções de Buchner, desaparecido em 1837, apenas com 23 anos de idade, deixando em esboço esta peça que tem apaixonado gerações, com um pequeno inter­valo de quinze anos, durante o qual foi interdita pelas autorida­des nazis
“Woyzeck” surge assim a quem dela se aproxima como uma obra inacabada, à espera de alguém que ordene os seus ele­mentos e unifique dramaticamente o todo. Isso mesmo consegue o cineasta alemão, por vezes de forma brilhante, contando para isso com a colaboração do seu actor preferido, Klaus Kinski, e de Eva Mattés, Grande Prémio de interpretação feminina no festival de Cannes.
Numa pequena cidade checa, em meados do século XIX, o soldado Franz Woyzeck trabalha em diversas ofícios procurando manter Mano, a mulher com quem vive, e o filho natural. O capi­tão do seu regimento oprime-o, o médico faz nele experiências humilhantes, a mulher traí-o com um militar músico que garbosa­mente passa diante da sua janela integrado na fanfarra. Woyzeck sofre em silêncio, até que um dia explode a sua ira e apunhala Maria, procurando lavar-se do sangue que o mancha, pene­trando cada vez mais longe, cada vez mais profundamente nas águas, onde desaparecerá.
Em “Woyzeck”, Herzog volta a abordar um tema que já explo­rara em “Sinais de Vida” e que voltará a ocupá-lo ao longa de toda a sua filmografia, como uma constante: a solidão, a humi­lhação diária, o acumular de sintomas de uma loucura que pro­gride à medida que a sociedade fecha o cerco em redor de um protagonista fraco. Um ser que lentamente se marginaliza até à explosão final que quase sempre reune a violência e a auto-des­truição.

FITZCARRALDO

Werner Herzog continua um cineasta invulgar. A sua filmografia atesta-o bem. E um homem que caminha quase sempre na linha de demarcação entre o normal e o anormal, o real e o fantástica, o sistema e a marginalidade. O seu cinema é o de um visionária, a sua aposta quase sempre excessiva e desmedida, qualquer que seja o aspecto por que é analisada. O seu interesse pela perso­nalidade lendária do aventureiro Brian Sweeney Fitzgerald, mais conhecida por Fitzcarraldo, alcunha que lhe foi posta pelos índios amazónicos, é uma curiosidade perfeitamente coerente com todo as obsessões e preocupações anteriormente expressas na sua já longo filmografia. Dir-se-ia, a princípio, como que um prolonga­mento de “Aguirre, o Aventureiro”, filme que abriu o caminho do êxito internacional deste cineasta onde a principal figura era igualmente interpretada por Klaus Kinski, alter-ego de Herzog, que regressou aqui no papel de Fitzcarraldo. Desta feita assumindo-se ainda mais como retrato e voz do autor, estabelecendo a liga­ção entre Fitzcarraldo e Herzog, unindo em si dois sonhos desme­didos que se amalgamam. Na verdade, “Fitzcarraldo” - o filme - é bem um projecto à altura do megalómano projecto de Fitzcar­raldo ao pretender atravessar uma colina com um navio.
Aliás, o aspecto mais interessante e fascinante deste filme é precisamente esta sobre­posição de sonhos que se concretizam contra tudo e contra todos. Por um lado, a vontade de Fitzcarraldo, apaixonado pela ópera, que procura construir um teatro em plena selva para aí trazer o divino Caruso. Essa obsessão leva-lo-á a tentar enrique­cer com base no negócio da borracha, demarcando em seu pro­veito uma zona inóspita, onde dificilmente o homem penetra. O lado visionário de Fitzcarraldo obrigo-a o ultrapassar todos os obstáculos, e quando uma língua de terra divide dois afluentes de um rio, Fitzcarraldo obriga o seu navio a subir a montanha, des­cer pela vertente do lado contrário e penetrar nas águas nova­mente.
Mas não é só contra a descrença trocista dos velhos colonos, nem só contra a adversidade da Natureza, que Fitzcarraldo se bate. E também contra os índios que o espreitam das duas margens e, finalmente, enchem o rio com as suas ameaça­doras embarcações. Será ao som de Caruso que Fitzcarraldo transporá esse obstáculo, sendo então visto como o enviado dos deuses, aquele que vem aplacar as suas iras. O que a salva num primeiro momento, mas que irá fazer perigar a sua aventura, quando os mesmos índios resolvem libertar o navio ao sabor dos rápidos, inviabílízando a parte comercial do empreendimento.
Fitzcarraldo não constrói a ópera em plena Amazónia, mas manterá, ainda assim, a promessa feita, contratando uma orquestra e cantores para subir o Amazonas a borda do seu “Molly-Aída” e espantar a população de Manaus com as árias de “Os Puritanos”, de Bellini.
Este sonho de Fitzcarralda é adaptado por Herzog, que o faz seu: ele próprio irá descer igualmente o Amazonas, embre­nhando-se na selva que continua inóspita, desafiando a descon­fiança dos índios, levando consigo um conjunto de técnicos e actores, alguns dos quais irão abandoná-lo a meio do percurso (Jason Robards, com disenteria; Mike Jagger, farto do ambien­te...). Revoltas de índios, acidentes diversos, várias bobinas des­truídas, inundações e tempestades, por tudo irá igualmente pas­sar; o seu sonho é pôr em imagens um outro sonho demencial. Obstinadamente, continua a aventuro, para lá de tudo o que possa parecer humanamente suportável. O resultado é uma obra que se não pode desligar desta atribulada génese: é óbvio que, no seu conjunto, o filme de Herzog reflecte as vicissitudes do tra­jecto, apresentando-se algo desequilibrado, com sequências bri­lhantes ao lado de outras que o são menos. Mas desprende-se da obra uma tal força telúrica, um lirismo tão repassado de amar­gura, um espírito de aventura de tal forma desesperado, que o transformam num momento de obstinada teimosia e loucura, a que não podemos ficar indiferentes. Klaus Kínsky, por seu turno, consegue transportar no rosto os estigmas dessa loucura que transita de Fitzcarraldo para Herzog e em si cristaliza.

A TERRA ONDE AS FORMIGAS VERDES SONHAM E COBRA VERDE

Os dois filmes seguintes de Werner Herzog são “Where The Green Ants Dreams”, rodado no Austrália, e “Cobra Verde”, que tem por cenário o Brasil e o Ghana, em África.
No primeiro, uma grande companhia mineira procura explo­rar o urânio no deserto, na centro do Austrália, mas encontra a oposição de Miliritbi e do tribo dos Riratjingu, aborígenes que consideram essa terra sagrada, o “terra ande sonham as formi­gas verdes”. O confronto será não violento: de um lado os “bulldozers”, do outro a obstinácia dos indígenas, depois as pro­messas, logo as ameaças... Um dos geólogos começa mesmo a entender as razões dos Riratjingus, o caso vai para tribunal, mas aí “a força do progresso” e sobretudo dos interesses em jogo pende para a lado da companhia. A tribo será evacuado de avião, onde os Riratjingus mantém as suas tradições, acendendo archotes e fogueiras. O geólogo afasta-se do deserto, nessa altura percorrido por um tornado que tudo parece consumir.
“Cobra Verde” é o pseudónimo de Francisco Manuel da Silva que, no séc. XIX, deixa o deserto brasileiro para se tornar pesqui­sador de ouro. Rapidamente se transforma num fora da lei, depois de alguns crimes cometidos, fugindo então para a Bahia, onde é contratado como capataz de um latifundiário e traficante de escravos. Humilhado por estas funções, Cobra Verde engra­vida as três filhas do patrão que se vinga enviando-o como exilado para África com o pretexto deste reunir escravas no Ghana e trazê-las para o Brasil. O rei deste país é um sanguinário tirano e Cobra Verde coloca-se a seu lado, arvorando-se Vice-Rei, organizando tranquilamente o tráfico de escravos. Mas um golpe de estado irá alterar a ordem estabelecida.
Neste trabalho, Werner Herzog volta a trabalhar com Klaus Kinski, mas as desinteligências entre actor e realizador cavaram um fosso dificilmente transponível no futuro, pela que esta foi também a derradeira cola­boração Herzog-Kinskí. Kinski, até inícios da década de 70 um medíocre, mas marcante actor de “westerns” italianos, tornou-se célebre na pri­meira obra rodada por Herzog, “Aguirre, o Aventureiro”. Depois foi sucessivamente protagonista de “Nosferatu, o Vampiro da Noite”, “Woyzeck, o Soldado Atraiçoado” e “Fitzcarraldo”. Sem a sua parti­cipação nestes títulos, que lhe grangearam fama coma intérprete, a coroa de glória de Klaus Kinski seria ter sido o pai de Nastassja Kinskí.
Klaus Kinski nasceu a 18 de Outubro de 1926, em Zoppot, Danzig, Alemanha (agora Sopot, Gdansk, na Polónia), e viria a falecer a 23 de Novembro de 1991, em Lagunitas, California, (EUA), vítima de um ataque cardíaco. Em 1999, Herzog retoma Klaus Kinski para um documentário intitulado “Mein liebster Feind - Klaus Kinski”, onde recorda a colaboração mantida entre ambos e as cinco obras que os ligaram: “Aguirre, o Aventureiro”, “Nosferatu, o Vampiro da Noite”, “Woyzeck, o Soldado Atraiçoado”, “Fitzcarraldo” e “Cobra Verde”.
Lauro António


(texto escrito em 1989, e revisto em Março de 2003)

WERNER HERZOG
Filmografia:


1962-1965
HERAKLES
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (preto e branco, 35 mm): Jaime Pacheco; Música: Uwe Brandner; Montagem: Werner Herzog; Produção: Werner Herzog / Cineropa FiIm / Walter Kruttner; Intérpretes: Mr. Germany;
D: 12 m. Rodado em Munique.

1964
SPIEL IM SAND
(Jogo na Areia)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (preto e branco, 35 mm): Jaime Pacheco; Música: Uwe Brandner; Produção: Werner Herzog; Intérpretes: crianças de uma colónia croata no sul da Austria;
Duração: 14 m. Rodado no sul da Austria, Transdarf on der Wulka.

1967
DIE BIESPIELLOSE VERTEIDIGUNG DER FESTUNG DEUTSCHKREUTZ
(A Exemplar Defesa da Fortaleza de Deutschreutz)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia: (preto e branco, 35 mm): Jaime Pacheco; Montagem: Werner Herzog; Produção: Werner Herzog Film produktion / Arpa Film / Bruno Zockler;
Intérpretes: Peter H. Bumm, Georg Eska, Karl-Heinz Steffel, Wolfgang Von Ungern-Sternberg;
Duração: 14 m. Rodado na fronteira austro-húngara.

1967
LEBENSZEICHEN
(Sinais de Vida)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog, segundo “Der Tolle Inva­lide Auf Dem Fort Ratonneau”, de Achim Von Amim; Fotografia (preto e branco, 35 mm): Thomas Mauch e Dietrich Lohmann; Montagem: Beate Mainka e Maximiliam Mainka; Música: Stavros Xarchakos; Produção: Werner Herzog Filmprodukion;
Intérpretes: Peter Brogle (Stroszek), Wolfang Reich­mann (Meinhard), Athina Zacharopoulou (nora), Wolfgang V.U. Sternberg (Decker), Wolfgang Stumpf (capitão), Júlio Pinheiro (ci­gano), Florian Fricke (pianista), etc.;
Duração: 90 m. Rodado na Ilha de Cos e em Creta.

1967
LETZTE WORTE (Últimas Palavras)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (preto e branco, 35 mm): Thomas Mauch e Dietrich Lohmann; Montagem: Beata Mainka: Música: Música popular de Creta; Produção: Werner Herzog Filmproduktion;
Duração: 15 m. Rodado em Creta e Spinalonga.

1968
MASSNAHMEN GEGEN FANATIKER
(Medidas contra os Fanáticos)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 35 mm): Dietrich Lohmann e Jorg Schmidt-Reitwein; Montagem: Beate Mainka-Jelling­haus; Produção: Werner Herzog Filmproduktion;
Duração: 11 m.

1968-1970
FATA MORGANA
(Fata Morgana)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 35 mm): Jorg Schmidt-Reitwein; Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus; Música: Mozart, Handel, Blind Faith, François Couperin, Leonard Conen; Produção: Werner Herzog Filmproduktion;
Intérpretes: Wolfgang Von Ungern-Sternberg, James Wil­liam Gledhill, Eugen des Montagues; Colaboração de Lotte Eisner, Gunther Welpert, Wolfgang Bachler, Manfred Eigendorl, Hans Dieter-Saver, Gunther Feyse, Wolfçcng Eisendorf, etc.;
Duração: 79 m. Rodado no Quénia, Tanzânia, Sahara, Nigéria, Alto Volta, Mali, Costa do Marfim, Lanzarote (llhas Canárias).

1969
DIE FLIEGENDEN ÄRZTE VON OSTAFRIKA
(Os Médicos Voadores do Leste de África)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 35 mm): Jorg Schmidt-Reitwein; Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus;
Duração: 45 m. Rodado em África, para TV.

1969-1970
AUCH ZVVERGE HABEN KLEIN ANGEFANGEN
(Também os Anões Começam por Baixo)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (preto e branco, 35 mm): Thomas Mauch e Jorg Schmidt-Reitwein; Montagem: Beata Mainka-Jel­linghauss; Música: Florian Fricke; Arranjos de música popular espa­nhola de Werner Herzog; Som: Herbert Prasch; Produção: Francisco Ariza / Werner Herzog Filmproduktion;
Intérpretes: Helmut Doring, Gerd Gic­kel, Paul Glauer, Ema Gachwendtner, Gisela Hertwig, Gertthar Marz, NarreI Minkner, Alfredo Piccini, Gertraud Piccini, Brigitte Sear, Marianne Seor, Ema Smolarz, Lalas Zsarmoczav, etc.; Duração: 96 m. Rodado em Lanzarote (llhas Canárias).

1970
BEHINDERTE ZUKUNFT
(Futuro Comprometido)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog, segundo ideia de Hans Reter Meier; Fotografia (cor, 16 mm): Jorg Schmidt-Reitwein; Montagem: Beata Mainka-Jellinghaus; Som: Werner Herzog; Produção: Werner Herzog Eilmproduktion; Narração: Rolf llling;
Duração: 63 m. Rodado em Muni­que, Hannover e Los Angeles.

1971
[AND DES SCHWEIGNS UND DER DUNKELHEIT
(A Terra do Silêncio e da Escuridão)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia: (cor, 16 mm): Jorg Schmidt-Reitwen; Montagem: Beata Mainka-Jellinghauss; Som: Werner Herzog; Música: J.S. Bach, Vivaldi; Produção: Werner Herzog Filmproduktion; Narração: Rol llling;
Intérpretes: Fini Staubinger, Heinrich Fleischmann, VIa­dimir Kokol, M. Baaske, Resi Mittermeier;
Duração: 85 m. Rodado em Munique e arredores.

1972
AGUIRRE, DER ZORN GOTTES
(Aguirre, o Aventureiro)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia: (cor, 35 mm): Thomas Mauch e João Orlando Macchiavello; Música: Popol Vuh; Montagem: Beata Mainka-Jellinghauss; Som: Herbert Prasch; Produção: Walter Soxer / Werner Herzog Filmproduktion/ Hessischer Rundfunk;
Intérpretes: Klaus Kinski (D. Pope de Aguirre), Helena Rolo (lnez de Atienza), DeI Negro (Frei Gaspar de Carvajal), Ruy Guerra (D. Pedro de Urzua), Peter Berling (D. Fernando de Guzman), Cecilia Rivera (Flores de Aguirre), Dany Ades (perucho), Armando Polanah, os índios da cooperativa Lauramarca, etc.;
Duração: 93 m. Rodado no vale de Urubamba, rio Huallaga, rio Nanoy, Perú; Dist. em Portugal: Talma Filmes; Estreia: Satélite, 4-3-1974.

1974
DIE GROSSE EKSTASE DES BILSCHNITZERS STEINER
(O Grande Êxtase do Escultor de Madeira Steiner)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 16 mm): Jorg Schmidt-Reitwein, Francisco João, Frederik Hettich, Alfred Chrasziel, Gideon Meron; Música: Popol Vuli; Montagem: Beata Mainka-Jellinghauss; Produção: Werner Herzog Filmproduktion / Suddentscher Rundfunk;
Intérpretes: Walter Steiner;
Duração: 45 m. Rodado em Planica (Jugoslávia) e Wild­hauss (Suiça).

1974
JEDER FUR SICH UND GOTF GEGEN A[LE
(O Enigma de Kasper Hauser)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 35 mm): Jorg Schmidt-Reitwein e Michael Gast; Música: Pachelbel, Orlando di Las­so, Albinoni e Mozart; Cenários: Henning Von Gierde; Montagem: Beata Mainka-Jellinghauss; Som: Haymo Henry Heyder; Produção: Werner Her­zog Filmproduktion / ZDE;
Intérpretes: Bruno S. (Kasper), Walter Ladengast (Daumer), Brigitte Mira (Kathe), Hans Musaus (o desconhecido), Willy SemmeIrodge (director do circo), Michael Kroecher (Lord Stanhope), Henry Von Lyck (capitão), Enno Patalas (Padre Fuhr­mana), Elis Pilgrin (segundo padre), Volker Pretchtel (Hiltel), Gloria Doer (Franc HiItel), Helmut Doring (o pequeno Rui), Kidlat Tahinik (Hombrecito), Andi Gottwald (o jovem Mozart), Dr. Willy Meyer-­Furst (médico), etc.;
Duração: 109 m. Rodado em Dinkelsbuhl e arredo­res, na Irlanda e no Sahara espanhol; Dist. em Portugal: S.I.F.; Estreia: Estúdio Apolo 70, 28-10-1977.

1975
HOW MUCH WOOD WOULD A WOODDCHUCK CHUCK
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 16 mm): Thomas Mauch, Francisca Joan e Ed Lachmann; Música: Shorty Eager e The Eagle Beavers; Montagem: Beata Mainka-Jellinghaus; Som: Werner Herzog e Walter Saxer; Produção: Walter Saxer / Werner Herzog Filmproduktion;
Intérpretes: Ralf Wade, Alba BalI, Steve Liptay, Aba Diffenbach;
Duração: 44 m. Rodado em Fort Colhas, Colorado, e em New Holland, Pennsylvania.

1976
MIT MIR WILL KEINER SPIELEN
(Ninguém quer Brincar Comigo)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 16 mm): Jorg Schmidt-Reitwein; Som: Haymo Henri Heyder; Montagem: Christian Weisenborn; Produção: Werner Herzog Filmproduktian / lnstituto de Explo­ração Científica e Pedagógica da Cinema e da Imagem (FWU);
Duração: 14 m. Rodado em Munique, Furstenried.

1976
HERZ AUS GLAS
(Coração de Gelo)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Herbert Achternbusch e Werner Herzog; Fotografia (cor, cinemascope, 35 mm): Jorg Schmidt-Reitwein; Montagem: Beata Mainka-Jellinghaus; Música: Popol Vuh e Studio der Fruhen Musik; Cen: Henning Voa Gierke, Cornelius Siegel; Som: Haymo Henry Heyder e Reter Voa Anft; Assistentes: Dr. Claude Chiarini, na Fritsche, Aba Greenberg e Patrick Leroy; Produção: Werner Herzog EiIm­produktion; Intérpretes: Josef Bierbichler (Hias, Berger e Vidente), Stefan Guttler (proprietário da fábrica de vidro), Clemens Scheitz (Adal­bert), Volker Prechtl (Wudy), Sonja Skiba (Ludmilla), Brunhilde Klockner (Paulin, a louca), Wolf Albrecht (Sam), Thomas Binkley (o tocador de mandolin), Janos Fischer (Agide), Wilhelm Friedrich, Edite Gratz, Alais Hruschka, Egmont Hugel, Sterling Jones, Wol­fram Kunkel, etc.;
Duração: 94 m. Rodada em Wyoming, Alaska, Utah (EUA), Franenau, perto de Zwiesel (floresta bávara), Kohlschach­ten, Schloss Walchsing (Baixa Baviera) e Pischelsdorf (Baixa Baviera), Via Mala (Grissons), Skelling Park (oeste da Irlanda); Dist. em Portugal: S.l.F.; Estreia: Cinebolso, 18-7-1980.

1976
LA SOUFRIÉRE
(A Sofredora)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 16 mm): Jorg Schmidt-Reitwein e Ed Lachmann; Montagem: Beata Mainka-Jelling­haus; Som: Werner Herzog; Produção: Werner Herzog Filmproduktion;
Duração: 31 m. Rodado em Guadalupe.

1977
STROSZEK
(A Canção de Bruno S.)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 35 mm): Thomas Mauch, Ed Lachmann; Música: Chet Atkins, Sonny Terry; Som: Haymo Henry Heyder, Reter Voa Anft; Assistentes: Waifgang Knigge e Stefano Guidi, Cornelius Siegel, Hening Voa Gierke, Reter Hoiz;
Intérpretes: Bruno S. (Stroszek), Eva Mattes (Eva), Clemens Scheitz (Scheitz), Wilhelm Voa Homburg (apoiante), Clayton Szlapinski (garagista), Ely Rodriguez (garagista índio), Alfred Ede (director de prisão), Scott McKain (empregado de banco), Dr. Vlacbav Vojta (médico), Michael Gahr (preso), Yucsel Topcugurler (preso), Bob Evans (cliente do restaurante);
Duração: 108 m. Rodado em Plainfield, Wiscon­sin, Cherokee, Carolina do Norte, Nova Iorque, Berlim, Munique; Dist. em Portugal: Filmes Lusomundo; Estreia: Apolo 70, 11-9-1978; Quarteto, 22-6-1979. Filme de Qualidade.

1978
NOSFERATU - PHAMTOM DER NACHT
(Nosferatu, o Fantasma da Noite)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog, segundo o filme de Frie­drich Wilhelm Murnau e romance de Bram Stocker (“Dracula”); Fotografia (cor, cinemascope, 35 mm): Jorg Schmidt-Reitwein e Michael Gast; Música: Papal Vuh, Richard Wagner, Charles Gounod, Vok Ansambl Gordela; Montagem: Beata Mainka Jellinghaus; Som: Harald Maury; Cenários: Henning Voa Gierke; Caracterização: Reiko Krukt, Dominique Colladaat; Luz: Martin Gerbl: Efeitos Especiais: Cornelius Sie­gel; Assistentes: Mirko Tichacek, Remmelt Remmelts; Produção: Walter Soxer / Werner Herzog Filmproduktion / Gaumont;
Intérpretes: Kbaus Kinski (Conde Drácula), lsabelíe Adjani (Pucy), Bruno Ganz (Jonathan), Jacques DufIho (capitão), Roland Topar (Renfield), Walter Laden­gast (Dr. Von Helsing), Don Von Husen (guarda), Jan Groth (comandante do porto), Carsten Bodinus (Schroder), Mortje Grah­mann (Mina), Ryk de Grooyer (funcionário), Clements Scheitz, Lo Voa Hensbergen, John Leddy, Margiet Von Hartingsveld, Tim Beekman, BeverIy Walker, Rudolf Wolf, Johoan te Slaa, Claude Chiarini, Stefan Husar, etc.;
Duração: 107 m. Rodado em Pernstein, nos montes Tatros, em Nedvedice, Tela (Checoslováquia), Guana­juato (México), Delft, Schiedam, Oostvorne (Mar do Norte), Lubeck, Eartnoch-Klomm; Dist. em Portugal: Filmes Castello Lopes; Estreia: Condes e Estúdio, 19-6-1979. Filme de Qualidade.

1978
WOYZECK
(Woyzeck, o Soldado Atraiçoado)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog, segundo peça teatral de Georg Buchner; Fotografia (cor, 35 mm): Jorg Schmidt-Reitweia; Som: Harald Maury, Jean Fontaine; Música: Fiedelquartet Teia, Vivaldi, Benedetto Marcello; Cenários: Henning Voa Gierke; Luz: Martin Gerbl; Montagem: Beata Mainka-Jellinghaus; Assistente: Mirko Ticha­cek; Produção: Walter Saxer / Werner Herzog Filmproduktion;
Intérpretes: Kbaus Kinski (Woyzeck), Eva Mattes (Maria), Wolfgang Reichmann (ca­pitão), Willy Semmelrodge (médico), Josef Bierbichler (tamborei­ro), Paul Burian (Andres), Volker Prechtl (artesão), Dieter Augustin, lrm Hrmann, Wolfgang Bachler, Rasy-Rosy Heinikel, Herbert Fux, Thomas Mettke, Maria Mettke, etc.;
Duração: 81 m. Rodado em Talc (Checoslováquia); Dist. em Portugal: Filmes Castello Lopes; Estreia: Quarteto, 21 -6-1980. Filme de Qualidade.

1982
FITZCARRALDO
(Fitzcarraldo)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 35 mm): Thomas Mauch; Música: Papal Vuh; Montagem: Beata Mainka-Jellinghaus; Cenários: Henning Voa Gierke e Ulrich Bergfelder; Efeitos Especiais: Miguel Vasquez; Luz: Raimund Wirner e Hans-Peter Vogt; Assistentes: Jorge Vignati e Frederico Contabonieri; Produção: Werner Herzog Filmproduktion / Project Filmproduktion da Filmverbag der Antoren / Wildlife Films (Rerm) / Gaumont;
Intérpretes: Klaus Kinski (Brian Sweny Fitzgerald, chamado Fitzcar­raldo), Claudia Cardinale (MolIy), José Lewgoy (Don Aquilino), Miguel Angel Fuentes (Cholo), Paul Hittscher (capitão Orinoso - Paul), Huerequeque Enrique Bahor (cozinheiro), Grande Othelo (chefe de gare), Peter Berling (director de ópera), David Perez Espinosa, Milton Nascimento, Rui Pobanah, Salvador Godinex, Dieter Milz, Bill Rose, Leoncio Bueno, índios de Ashininka, Campa da Grande Pajonal e índios de Campo do Rio Tambo;
Duração: 180 m. Rodado no Perú e Brasil. Dist. em Portugal: Filmes Castello Lopes; Estreia: Londres e Charlot, 6-1-1983. Filme de Qualidade.

1984
WHERE THE GREEN ANTS DREAM
(A Terra onde as Formigas Verdes Sonham)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog; Fotografia (cor, 35 mm): Jorg Scnmidt-Reitwein; Montagem: Beata Mainka-Jeilinghaus; Música: Gabriel Fauré, Ernest Bloch, Klaus-Jochen Wiese, Richard Wagner, Wand­juk Marika; Efeitos Especiais: Brian Pearce; Som: Claus Langer; Produção: Lucki Sti­petic / Werner Herzog Filmproduktion;
Intérpretes: Bruce Spence (Lance Hac­kart, geólogo), Wandjurk Marika (Milisitbi), Roy Marika (Dayipu), Ray Barrett (Cole), Norman Kaye (Baldwin Ferguson), Coleen Clif­ford (miss Strehlow), Ralph Cotteril, Nicaias Lathouris, Basil Clar­ke, Ray Marshall, Dhungula I, Mariko, Gary Willioms, Tony Liewellyn-Jones, etc.;
Duração: 100 m. Rodado na Austrália.

1987
COBRA VERDE
(Cora Verde)
Realização: Werner Herzog; Argumento: Werner Herzog, segundo romance de Bruce Chatwin; Fotografia (cor, 35 mm): Viktor Ruzicka e Thomas Mauch; Direcção Artística: Fabrizio Carola; Música: Papal Vuh; Montagem: Maximiliane Moin­ka; Som: Hayma H. Heyder; Produção: Werner Herzog Filmproduktion/ ZDE /Ghana FiIm;
Intérpretes: Klaus Kinski (Francisca Manoel da Silva), King Ampaw (Taparica), José Lewgoy (Dom Octávio Coutinho), Salvatore Basile (Capitão Fraternidade), Peter Berhing (Bernardo), Guil­hermo Coronel (Euclides), Nona Agyefi Kwane II de Nsein (Bona Ahadec), Nona Fada Abada (Yovogan), Kofi Yerenkyi (Bakoko), Benito Stefanelhi (Capitão Pedro Vicente), Yobanda Garcia (Dono Epsiphania), etc.;
Duração: 110 m. Rodado no Brasil a no Ghana.